O tempero dos vizinhos

Seu Tranquilo Favero que faça-me o favor, há certas coisas que é difícil até para se pensar, e menos ainda dizer. Que ele é ou foi vítima de muitas ações de grupos extremistas ligados aos campesinos, o mundo todo já sabia, aliás, a pose de vítima lhe caia melhor. Do nada se transformou em alguém bem oposto ao nome. O desabafo pode lhe criar muitos problemas, pois feriu os paraguaios de uma forma deselegante e grosseira e não apenas os que reivindicavam terras. Tomara não tomem as palavras e o pensamento dele como sendo dos demais brasileiros que cultivam terras, criam gados e possuem negócios no Paraguai.

 A verdade é que muitos brasileiros não conhecem de fato o temperamento dos paraguaios. Por trás daquele jeito simples, os trejeitos guaranis e os modos aparentemente rústicos, o cidadão paraguaio é extremamente sensível; é habilidoso em matéria de política e uma de suas características mais marcantes é a persistência. São amáveis de tudo, mas não devem ser chamados para a briga. Defendem o terreno com a ferocidade de um vietnamita. E quem não quiser ver o Paraguai se transformar no Vietnã das Américas, que não se meta à besta.

 Em minha opinião, a diplomacia paraguaia deveria ser matéria ou estudo no Instituto Rio Branco, mirem pela construção de Itaipu. Foi respeito dos brasileiros pelo genocídio praticado pela fatídica Tríplice Aliança (1864-1870)? Teria sido então uma negociação para resolver o impasse de Sete Quedas? Nada, foi diplomacia e da mesma maneira negociaram Yacyretá com os argentinos. O Paraguai, não fosse a miopia política do Estado, poderia facilmente se transformar numa nação rica, pois tem energia elétrica para o desenvolvimento industrial; as terras são muito férteis; há riquezas minerais virgens e incontáveis numa região praticamente inexplorada, o Chaco Boreal, e é, logisticamente, o entreposto comercial da América do Sul. No dia em que o Paraguai escolher um líder progressista e que ao mesmo tempo se identifique com as correntes populares, as mudanças serão muito rápidas.

  O que deploro no país vizinho é a morosidade em algumas ações, como a permissão do ingresso de armas e munições; o quase livre-trânsito de alguns cartéis e a falta de investimentos em assistência e controle territorial. Falta também a mão social. Se há brasileiros e gente de outros países explorando terras paraguaias, é em razão das anomalias de um passado político recente; do mesmo jeito que algumas multinacionais imperam no Brasil. Trata-se de uma questão da mais pura proporcionalidade.

 Não é agredindo e rebuscando a luta paraguaia pelos direitos, pela democracia, que o Brasil e os brasileiros aclararão as lacunas e os desentendimentos. Neste caso, não cabe apenas a diplomacia estatal e sim por parte de cada um dos indivíduos proprietários, investidores e demais pessoas que incrementam a vida em terras paraguaias. Cada caso é um caso e os abusos devem ser tratados na Justiça, nos meios governamentais, na base da conciliação. É mais fácil conciliar com um paraguaio do que querer brigar com ele. Se juntam, se unem, se articulam e a explosão de Tranquilo Favero é um exemplo disso.

Os brasileiros fazem uma leitura equivocada do Paraguai. Medem por Ciudad del Este, acreditando que a bagunça é generalizada em cada palmo de chão até Assunção. Não é assim. O governo de lá comete erros e equívocos, sobretudo quando permite a formação de células que, organizadas, podem gerar a guerrilha. E o que causa o fenômeno? Simplesmente a falta de atenção aos desassistidos e a Justiça eficaz, no transbordo das situações, como por exemplo, uma política rural assistida, com investimentos, financiamentos e incrementos tecnológicos.

O Brasil poderia lucrar e muito com o Paraguai. As parcerias estão aos olhos do mundo, mas parece que há um distanciamento ideológico. Para finalizar, escrevam e anotem: o dinheiro e a pressão dos brasileiros não são suficientes para vencer o senso de patriotismo daquele povo. Eles se convertem muito rapidamente em Nação quando são aviltados. Algo que nós brasileiros ainda não aprendemos fazer. 

Matéria do jornal A Gazeta do Iguaçú escrita por Rogério Bonato.

http://www.gazeta.inf.br/2012/02/16/o-tempero-dos-vizinhos/#.Tzz1Hc8ndok.email

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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Uma resposta para O tempero dos vizinhos

  1. Joel disse:

    Eu como brasileiro, em minhas veias corre o sangue missioneiro e guarany, e sou a favor que, os verdadeiros donos da terra são os povos nativos, mas como no Brasil as nações indígenas Guaranys e tantas outras etenias que foram expurgados e exterminados ou transformados em mendigos, e eram os verdadeiros donos da terra, hoje apenas se vê resquícios dos povos guaranys das Missões que era predominante na ragião sul, agora se vê nações indígenas sendo dizimadas na amazônia da mesma maneira que foram no Sul. Por isso que entendo que a soberania do povo Guarany deve ser preservada e respeitada. E os srs governantes mirarem com muito cuidado e carinho essa causa que pode trazer muito transtornos aos nossos povos sul-americano.

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