Deu no The New York Times: História do idioma guarani

O The New York Times, um dos jornais mais importantes do planeta, na sua edição de segunda-feira, 12 de março, publicou uma longa matéria sobre a história do uso do idioma guarani no Paraguai. O guarani, juntamente com o castelhano, é língua oficial do país. A materia foi escrita pelo jornalista Simón Romero.

An Indigenous Language With Unique Staying Power: http://www.nytimes.com/2012/03/12/world/americas/in-paraguay-indigenous-language-with-unique-staying-power.html?_r=2&pagewanted=all%3Fsrc%3Dtp&smid=fb-share&fb_source=message

Crianças do Paraguai aprendem o idioma guarani em aula

Crianças do Paraguai aprendem o idioma guarani em aula. Noah Friedman-Rudovsky for The New York Times The group Invidente plays typical Guaraní music on a Guaraní-language television show. The language is spoken by an estimated 90 percent of Paraguayans.

Paraguai é o único país da América em que a maioria dos habitantes falam uma língua indígena

Simón Romero desde Asunción – Paraguay: Os parlamentares no Congresso pronunciam seus discursos em guarani. Namorados se abraçam nos bancos das praças de Assunção murmurando doces palavras em tom agudo e sons nasais e guturais. Fanáticos torcedores do futebol as utilizam para insultar os árbitros durante os jogos.

Até os dias atuais, o Paraguai é o único país das Américas onde a maioria da população fala uma língua indígena: o guarani. Esse idioma é protegido pela Constituição do país, em igualdade com a língua da conquista europeia, o espanhol. Nas ruas, é motivo de orgulho nacional.

O Paraguai se diferencia significativamente de outras nações multilíngues latino-americanas, como o seu país vizinho, a Bolívia, onde a maioria da população é indígena. Línguas como o quéchua e aymará são faladas lá por diferentes povos, mas raramente pela população mestiça ou da elite tradicional.

“Apenas 54 das quase 12 mil escolas ensinam o português”, afirma Nancy Benitez, diretora de currículo do Ministério da Educação, sobre o idioma de outro vizinho, o Brasil, o gigante país que domina o comércio com o Paraguai. “Mas todas as nossas escolas ensinam o guarani”, conclui.

No Paraguai, os indígenas não atingem 5% da população total. Mesmo assim, o guarani é falado por aproximadamente 90% dos paraguaios, incluindo muitos da classe média, candidatos presidenciais da classe alta e até pessoas recém-chegadas ao país.

“Mba´éichapa?”, pergunta Alex June, 27 anos, um imigrante coreano que trabalha no restaurante de sua família na parte antiga de Assunção, saudando seus clientes com esta frase em guarani que quer dizer “Como vai?”.

“Iríamos à falência se não soubéssemos o básico”, explica Alex.

Linguistas e historiadores afirmam que as complexas razões que explicam o amplo uso do idioma nativo no Paraguai vêm dos remotos dias da chegada dos espanhóis ao continente no século 16. A “encomienda” [trabalho forçado], um sistema comum praticado pelo império espanhol, que obrigava os indígenas a trabalharem para os europeus e seus descendentes, não penetrou na grande parte do território que depois se tornou o Paraguai.

Por outro lado, os evangelizadores jesuítas criaram comunidades [as denominadas reduções jesuíticas, que ocuparam parte do Paraguai, Brasil, Argentina e outras regiões da América, nos séculos 16 a 18] para os guarani e outros grupos indígenas, cobrindo extensas regiões, como mostra o filme “A missão”. Armaram os guarani para resistir às expedições espanholas em busca de mão de obra escrava, e cultivaram o idioma original com livros e ensino.

Quando a Espanha [e Portugal] expulsou os jesuítas do continente, em 1767, mais de 100 mil indígenas da fala guarani se esparramaram pelo território paraguaio, segundo Shaw N. Gynan, linguista estadunidense. Décadas depois, a população de fala guarani compunha a maior parte da sustentação política a José Gaspar Rodríguez de Francia, presidente do já independente Paraguai.

Um dos governantes paraguaios até 1840, Francia foi chamado de Karai Guaçú, grande senhor. Ele proibiu as pessoas brancas da classe alta a se casarem entre si, fechou as fronteiras do Paraguai e implantou um sistema de espionagem, os pyragues (pés leves, rápidos e peludos que praticavam a delação) para apoiar seu governo.

O resultado: uma elite europeizada querendo o final do regime de Francia. Outros governantes usariam mais tarde o idioma guarani para alimentar o fervor nacional. Generais reuniam suas tropas se comunicando em guarani na devastadora guerra da Tríplice Aliança, na qual morreram 60% da população paraguaia.

O isolamento também contribuiu para manter o guarani. O romancista paraguaio Augusto Roa Bastos, que em suas obras usava o guarani e o castelhano, chamou essa terra do tamanho da Califórnia e sem saída para o mar de uma “ilha rodeada de terra”.

Sob a ditadura do general Alfredo Stroessner, que governou o país de 1954 a 1989, o idioma guarani prosperou. Certa vez, durante o regime de Stroessner, o escritor Graham Greene advertiu que aos turistas que eles corriam riscos de levar tiros da polícia na rua caso eles não entendessem o idioma guarani.

O general Stroessner, filho de um imigrante alemão da Bavária e sua esposa que falava guarani, oficializou o idioma, fez uso de sua própria rede de espionagem, os pyragues, e recompensava os camponeses informantes de fala guarani, dando-lhes terras em troca de sua lealdade.

“Por mais que possa parecer perturbador, os líderes políticos no Paraguai creem ser conveniente se dirigir às massas no idioma guarani, oprimindo a forças liberalizantes no processo”, de acordo com o linguista Gynan.

Quando foi restabelecido o regime democrático, em 1990, foram tomadas medidas para fortalecer o guarani. A Constituição de 1992 estabeleceu o idioma guarani em condições de igualdade com o espanhol. Funcionários afirmam que o guarani se expandiu nas escolas primárias.

Ensina-se guarani afirmando-se o nacionalismo e a prevenção para que ele não seja suplantado pelo espanhol, língua dominantes por muito tempo na administração e nos negócios.

O idioma guarani já entra em novos campos, como a literatura. Obras como Dom Quixote, de Cervantes, e o “Livro Mórmom”, foram recentemente traduzidos para o idioma. Os habilitados na escrita guarani trocam mensagens de texto de despedidas escrevendo “Jajuecháta Ko’érõ,” que significa “Nos vemos amanhã”.

Uma encruzilhada linguística vibrante também persiste no “jopará”, uma mistura do guarani com o espanhol. Uma frase em ‘jopará’ diz: “ley del mbareté” ou “lei do mais forte”. Isto capta a essência de uma nação conhecida como o asilo de contrabandistas, traficantes de armas e falsificadores.

O guarani também já entrou no campo diplomático pelas mãos de um antigo embaixador estadunidense, James Carson, fluente no idioma guarani. Ele diz que este idioma “provavelmente é mais difícil do que o chinês”, e gravou um algum em 2008 com uma canção tradicional em guarani e que foi tocada em algumas rádios.

“Obviamente foi astúcia de Carson fazer isto”, afirma Maria Eva Mansfeld de Aguero, membro da Comissão Nacional de Bilinguismo, “Um diplomata no Paraguai não deveria falar somente o espanhol em festas e recepções”.

Mas nem todos estão entusiasmados com o futuro do guarani. Ramon Silva, poeta e ensaísta que dirige um programa diário em guarani, é cético. “O guarani está avançando lentamente para a sua morte”, afirma ele.

“O idioma perfeito para arrasar verbalmente um adversário”, disse Silva.

A sua maior preocupação é com a criação de novas palavras em guarani para substituir as palavras emprestadas ao espanhol. “Fazendo uso de palavras emprestadas pode ser com boa intenção”, diz, “mas nega a realidade do idioma e empurra os praticantes da língua para o espanhol”.

Entre os livros de Silva, há uma coleção poética de título “Na´ápe” (“Toma”), mostrando o dedo do meio, que ele chama de “antiditatorial e vulgar”,  que mostra a capacidade humorística do guarani.

Outros também compartilham as preocupações de Silva sobre o futuro a longo prazo do guarani, destacando o aumento da migração dos camponeses das áreas rurais – onde o guarani é o idioma predominante –, para as zonas urbanas – onde o espanhol predomina.

Mais além de um rápido olhar sobre o futuro do idioma, e o sentimento nacional que a língua desperta, a escrita guarani ainda está nos limites de Assunção.

Enquanto muitos paraguaios se irritam com o crescimento econômico do brasileiro, uma estampa em uma camiseta diz “Itaipú Ñane Mbae” (“Itaipu é nossa”). Referência à hidrelétrica de Itaipu na fronteira com o Brasil, pertencente a ambas as nações, mas vista por alguns como o símbolo da submissão do Paraguai ao seu maior vizinho.

 
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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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2 respostas para Deu no The New York Times: História do idioma guarani

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