Tañarandy, um ritual religioso único na América Latina

Tañarandy, Misiones, Paraguay

Sob os céus de Tañarandy, fiéis revivem a Paixão de Cristo.

Milhares de pessoas proporcionam um espetáculo de arte e fé na pequena cidade paraguaia localizada no departamento de Missões, onde os jesuítas no século 17 iniciaram a evangelização no continente.

Julia R. Arévalo, EFE, 27/03/2012

Milhares de velas e tochas iluminam, a cada Sexta-feira Santa, o caminho dos peregrinos que vão para a pequena cidade de Tañarandy, no Paraguai. Após a procissão da Virgem Maria em direção ao seu Filho na Cruz, os moradores participam do espetáculo dos quadros vivos [uma encenação com base em obras de arte famosas].

Pelas mãos do artista plástico Delfin Perez Roque Ruiz, conhecido como Koki Ruiz, que vive próximo a Tañarandy, os habitantes da pequena cidade são preparados, com bastante antecedência, para os festejos de sua original Semana Santa, que a cada ano atrai mais turistas paraguaios e estrangeiros.

A celebração artística da Semana Santa e a obra de Koki Ruiz são as principais atrações da cidade de São Ignacio Guazú, distante cerca de 260 quilômetros ao sul de Assunção, onde os padres da Companhia de Jesus, em 1610, ergueram a primeira de suas Missões na região.

O CAMINHO PARA O CÉU

Tañarandy, Misiones, Paraguay

O projeto desenvolvido por Koki Ruiz começou em 1992 com a procissão iluminada Yvaga Rapé – caminho para o céu, em guarani. O cortejo começa na Capela Tañarandy, nos arredores de São Ignacio Guazú, e percorre uma estrada rural cuja topografia favorece a uma imagem impressionante de noite e iluminação para os participantes da caminhada.

Alguns dias antes da Sexta-feira Santa, os moradores colocam no Yvaga Rapé cerca de 15 mil velas, feitas artesanalmente com sebo e mechas de casca de apepu – laranja azeda –, e 5 mil tochas presas em estacas ladeando a estrada de terra por onde os fiéis vão passar já ao entardecer.

O “Purahéi jahe’o”, canção de lamento dos peregrinos, acompanha a imagem da Virgem Maria, vestida de preto, da capela local até chegar ao encontro de seu filho, o Jesus Mutilado, que é então retirado da Cruz.

A imagem da Virgem e Jesus na Cruz são obras de Koki, que projetou um Cristo articulado, mas não conseguiu terminá-lo para a primeira celebração. “Gostamos como ficou (mutilado) [inacabado], nos pareceu suficiente e assim ficou para os anos seguintes”, explica o artista à agência de notícias espanhola EFE.

Após a procissão, a noite já caiu completamente neste rincão da província de Misiones, iluminado pelas luzes das velas, tochas, e estrelas, e sob o efeito surpreendente da memória da Paixão de Cristo.

Os moradores e visitantes se sentam no chão em torno de La Barraca – como é conhecido o local onde Koki Ruiz tem seu ateliê e monta o seu espetáculo –, a espera da surpresa do ano.

OS QUADRO VIVOS

Tañarandy, Misiones, Paraguay

Foi em 2004, que Koki Ruiz acrescentou à procissão a atração dos quadros vivos, representações teatrais de obras de grandes pintores alusivas à Paixão de Cristo. A cada ano, o artista amplia a sua proposta. Para 2012, a novidade é a figura de Salvador Dalí [pintor surrealista espanhol], segundo informou à EFE.

Obras do Renascimento como A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci, e A Descida da Cruz, de Russo Fiorentino; ou do Barroco, como O Santo Sepulcro, de Miguelângelo Merisi de Caravaggio, saíram de seus museus, pinacotecas e igrejas para transformarem-se em realidade efêmera sob os céus de Tañarandy.

A surpresa de 2009 foi uma homenagem aos 400 anos da fundação de São Ignacio Guazú. No ano passado, o artista encerrou seu desfile com uma réplica da fachada da Catedral da Sagrada Família, igreja localizada em Barcelona (Espanha), obra do artista Antonio Gaudí.

O museu vai reabrir as suas portas este ano com recriações de pinturas barrocas, tarefa desempenhada sempre pelos atores amadores, moradores de Tañarandy.

“Temos de trabalhar não só para atender as pessoas que vêm, mas nós mesmos. Não quero fazer o mesmo, mas às vezes você tem que repetir os clássicos. É um desafio a cada ano”, diz Koki.

O artista se surpreende com a repercussão que alcançou a sua ideia: “Eu nunca imaginei que tanta gente viria. A mídia fala de 15 a 20 mil visitantes. São números enormes para o Paraguai.”

Algumas pessoas vão em excursões religiosas. Outros chegam a Tañarandy por ser conhecedores de festejos de Semana Santa, vindos da Itália ou França, por indicação de turistas que lá estiveram e contaram suas experiências.

A TERRA DOS IRREDUTÍVEIS

Tañarandy, Misiones,Paraguay

Trata-se de “evangelizar por meio da persuasão artística, como fizeram os jesuítas, que evangelizaram os guarani com a música e com a arte”, compara Koki. E acrescenta que os guarani “foram conquistados por meio da arte, da sedução do Barroco, das grandes missas cantadas; as armas não dobraram os índios”.

Paradoxalmente, a religiosidade representada em Tañarandy se choca com o seu passado de “terra dos demônios” ou dos “hereges”, significado da palavra Tañarandy. As crônicas da época relatam que os guarani escapavam para esse local, fugindo da doutrinação e das reduções jesuíticas, distantes apenas três quilômetros dali.

Koki rebatizou Tañarandy como “terra dos irredutíveis”, e assim, como os jesuítas, motivou toda a comunidade a participar das atividades religiosas da Semana Santa por meio de sua obra de arte efêmera.

Diz ele que a Igreja “inicialmente não entendia” a sua proposta, mas com os anos acabou aceitando a sua implantação. Agora, afirma, “eles celebram a data antes ou na manhã da Sexta-Feira Santa, e depois se somam [aos festejos]. (O espetáculo) nós fazemos com grande devoção”.

E assim, por meio da arte, Tañarandy protagoniza um ritual religioso único na América Latina. Está aí uma boa razão para visitar o Paraguai e percorrer a rota jesuítica de São Ignacio Guazzú, passando por São Cosme e Damião até chegar às magnificamente conservadas ruínas de Trinidad e de Jesus.

Tradução: Aldo Aldesco Escobar

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O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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