Paraguaios lutam para preservar língua guarani

Marcia Carmo, de Buenos Aires para a BBC Brasil. Atualizado em  28 de agosto, 2012 – 15:00 (Brasília) 18:00 GMT

Primeira língua indígena a dividir com o espanhol o título de idioma oficial em um país da América Latina, o guarani chegou à internet, mas é cada vez menos falado pelas crianças nos lares paraguaios. Analistas dizem acreditar que o idioma pode desaparecer em “duas gerações”.

Segundo o professor de linguística e de antropologia David Galeano, da Universidade de Assunção, o guarani era o idioma original dos países da América do Sul “antes da chegada dos conquistadores”, nos séculos passados.

A língua chegou a ser utilizada em boa parte do centro-sul do Brasil, mas é no território paraguaio que resiste atualmente. O professor Ramón Silva, que fez um doutorado na língua, diz que o país foi o primeiro a reconhecê-lo e incluí-lo em sua Constituição, em 1967.

Alguns países chegam a reconhecer idiomas indígenas por meio de resoluções ou de forma circunscrita a determinadas regiões de seu território. Na Bolívia, por exemplo, a Constituição de 2009 estabelece como idiomas oficiais do Estado o castelhano e “todos os idiomas das nações e povos indígenas originários camponeses” – entre eles o guarani.

A sobrevivência do guarani no Paraguai foi abordada em um seminário internacional sobre o “bilinguismo” no país, realizado essa semana em Assunção. O evento foi organizado pelo governo local e pela Organização de Estados Ibero-americanos (OIE), e teve também a participação de americanos e europeus.

Os especialistas divergem sobre até quando a língua resistirá “em tempos de tecnologia e de globalização”. “O guarani sempre foi o idioma nas nossas casas. Agora as crianças aprendem, na escola, a ler e a escrever, mas não a falar guarani. Para sobreviver, a língua deve ser falada. Por isso, acho que a tendência é que ela acabe em duas gerações”, disse Ramón Silva à BBC Brasil.

A diretora de promoção de línguas da Secretaria Nacional de Cultura do Paraguai, Susy Delgado, discorda. “Se o guarani sobreviveu até aqui por que não sobreviveria em novos séculos?”, afirmou.

Sobrevivência

Filho de pai brasileiro e mãe paraguaia, Ramón Silva, de 50 anos, é apresentador do programa de televisãoem guarani “Káy’uhape” (em espanhol “Tomando Mate”).

No programa, que vai ao ar às 4h30 (hora local), quando a maioria dos paraguaios acordam, são apresentadas notícias nacionais e internacionais, além de entrevistas com autoridades locais em guarani.

Silva trabalha ainda na aplicação da lei que obriga escolas a incluírem a língua no currículo, já que hoje não são todas que o ensinam. A lei prevê também que aeroportos locais passem a informar, a partir do ano que vem, sobre chegadas e partidas dos voos não só em espanhol, como ocorre hoje, mas também em guarani.

A lei foi aprovada no governo do ex-presidente Fernando Lugo com objetivo de manter vivo o idioma falado por cerca de 90% da população, segundo dados oficiais.

Futebol

No Paraguai, é comum ouvir de políticos e analistas econômicos a taxistas e jovens engraxates falando em guarani. Nos campos de futebol, dentro e fora do país, os jogadores também costumam se comunicar na “língua mãe”, como é chamado o idioma.

“(Os jogadores falam guarani) Especialmente quando querem evitar que o adversário entenda o que estão dizendo”, afirmou Delgado. Ela tem livros de poesias em guarani e em espanhol. Na região da fronteira com o Brasil, os paraguaios costumam falar guarani e português. Muitas vezes o espanhol não faz parte das conversas, inclusive de crianças – que às vezes não sabem a diferença entre português e espanhol.

“Na fronteira, os paraguaios falam principalmente portunhol (mistura do português e do espanhol), guarani e espanhol. Mas eles não são trilíngues. Eles mesclam os três idiomas e assim se entendem”, afirmou Silva.

Galeano diz que na fronteira, impera o “guaratuguês” (mistura do guarani com português).

Proteção

Um guia de turismo que costuma fazer a viagem entre Assunção e a igreja franciscana de San Buenaventura de Yaguarón, a 48 quilômetros da capital paraguaia, explica aos turistas estrangeiros que a história “trágica” do país acabou “protegendo o guarani da globalização”.

“A desgraça da história do Paraguai foi positiva para a sobrevivência do guarani”, explica Ramón Silva. De acordo com ele, no período da colonização os espanhóis iam embora e as mulheres que permaneciam falavam guarani com as crianças.

“Na Guerra Grande (Guerra do Paraguai) e na Guerra do Chaco, os homens foram à luta e as mulheres ficaram sozinhas ou com as crianças. O guarani foi sendo passado, em casa, de geração para geração”, diz Susy Delgado.

Ela reconheceu que o “isolamento” político do país, ao longo da história, ajudou nesta sobrevivência. “Agora tem gente aqui no país que planeja fazer até teclado de computador em guarani.”

FONTE: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120824_guarani_mc.shtml

Dicionário de guarani. | Foto: Márcia Carmo/BBCBrasil

Ramón Silva elaborou dicionário de guarani com termos militares, religiosos, médicos e jurídicos

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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4 respostas para Paraguaios lutam para preservar língua guarani

  1. Sou de Foz do Iguaçu no Paraná e nao sei se é de vosso conhecimento que na UNILA está sendo ministrado por um grupo de alunos paraguaios, apoiados por uma renomada professora da instituição, um curso do Idioma Guarani(Garany Ñe’ē). São 3 módulos com duração de 18 meses mais ou menos. É também uma forma de preservar e fazer conhecer esse idioma tão lindo! Sou aluna deste curso e vejo que muitas pessoa de várias nacionalidades tem interesse em aprende- la, porque ali dividimos espaços com alunos vindos de toda América Latina. Obrigada!

  2. paraguaiteete disse:

    Oi Maria! sim, estamos em conhecimento do curso de guarani na UNILA. Nosso amigo e integrante do Núcleo, professor Mario Villalva Filho da aulas lá. Abs e obrigada por nós escrever.

  3. Pingback: Apoio dos brasileiros a língua guarani | PARAGUAY TEETE

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