Por onde se faz a integração?

Escrito por Paulo Mortari A. Correa, brasileiro nato e simpático à ideia de uma aproximação maior entre os povos latino-americanos.

Já faz mais de meio ano que a República do Paraguai teve decretada sua suspensão do Mercosul (Mercado Comum do Sul), o que, dentre outras consequências, inaugurou um período de considerável incerteza quanto aos rumos da integração regional. Deste imbróglio, uma das lições que urgem ser aprendidas é que a aproximação entre diferentes nações, para ser exitosa, não pode depender apenas da ação e vontade de dirigentes da política.

A América Latina, de forma geral, continua a ser acometida pelo mal do personalismo político, termo que utilizo aqui em referência a um aspecto em específico: a ascensão de líderes que praticamente incorporam a identidade de suas respectivas nações, como se, durante seu exercício de poder, sua imagem se tornasse símbolo maior do próprio Estado que juram servir. Parece que ainda nos aflige a necessidade de termos uma figura heroica como responsável por guiar todo um país à fortuna, um mártir sem o qual não poderíamos sequer sobreviver.

Por onde se faz a integração?

Por onde se faz a integração?

Um dos possíveis efeitos desta dependência é a transformação da integração regional em um processo que se desenvolve “de cima para baixo”. Em outras palavras, esta faceta do personalismo político pode resultar na expectativa de que a aproximação entre nações deva ser conduzida essencialmente por chefes de Estado e demais membros da cúpula do poder político, de modo que aqueles que não façam parte deste seleto grupo apenas acatem ao que for decidido “pelos superiores”. O problema, contudo, é que esta visão não só é insuficiente para alavancar uma real integração como tende até a prejudicá-la, em alguns momentos – por exemplo, quando o processo se torna mero instrumento aos interesses partidários ou até ideológicos dos líderes responsáveis.

Qualquer projeto de integração regional, para ter a possibilidade do êxito, não pode se limitar à celebração de tratados comerciais ou estabelecimento de cúpulas ministeriais, ainda que bem institucionalizadas e realizadas com periodicidade. É preciso que haja um envolvimento de todas as camadas da sociedade, participativas na condução dos rumos de seu próprio destino. Nesta tarefa, um dos fatores mais importantes é, sem dúvida, o compartilhamento de uma identidade comum entre os povos, o que implica em um reconhecimento de certa semelhança de uns com os outros. Isso, por sua vez, depende da superação de quaisquer preconceitos e estereótipos que possam existir nesta relação.

O comportamento que muitos brasileiros têm com relação aos paraguaios, com certeza, não se alinha a este ideal. Aqui, infelizmente, não é raro testemunhar atitudes discriminatórias com relação a nativos da vizinha República guarani – principalmente nas grandes cidades distantes da fronteira –, tratamento este que excede os limites do que poderia ser considerado racional ou “sadio”. Chega-se ao ponto de também não ser raro o emprego do gentílico “paraguaio” como complemento ao que se tem de pior em nosso continente – como a corrupção, a pirataria e o tráfico de drogas, apenas para citar alguns exemplos.

No Brasil, o comportamento que muitos brasileiros têm com relação aos paraguaios, com certeza, não se alinha a este ideal.

No Brasil, o comportamento que muitos brasileiros têm com relação aos paraguaios, com certeza, não se alinha a este ideal.

E aonde desejo chegar com tudo isso, afinal? Simples: quero dizer que uma verdadeira integração regional – não a mera troca de produtos a preços baixos ou de discursos amigáveis entre chanceleres, mas uma integração real, de fato! – passa inevitavelmente pelo respeito entre os povos, sendo essa uma tarefa de todos os que nestas terras americanas fazem suas vidas. Enquanto persistirmos caminhar mirando o horizonte e os companheiros de jornada ao lado pelas lentes embaçadas do preconceito e da ignorância ou delegarmos nossa sorte e responsabilidades inteiramente àqueles que detêm o poder político, será difícil consolidarmos um modelo de integração que dê bons frutos em longo prazo. Pelo menos é isso que todos estes anos de convívio parecem querer nos dizer.

Anúncios

Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
Esse post foi publicado em Prensa / Imprensa e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Por onde se faz a integração?

  1. Tácito Loureiro disse:

    Prezado Paulo Mortari A. Correa, Após a leitura do teu artigo, quero lhe fazer três perguntas: a) quais os benefícios o Mercosul trouxe ao Paraguai?; b) o que você sugere para substituir o Presidencialismo?; c) quais cidades paraguaias você conheceu? Por quê? O que fez nelas? Grato pela atenção!

    • Paulo Mortari disse:

      Olá, Tácito! Primeiramente, obrigado pelas perguntas e pela oportunidade de eu poder esclarecer melhor meu ponto de vista, coisa que por um breve artigo às vezes não é fácil. Bem, respondendo em ordem às suas perguntas:
      A) Penso que os mais indicados para falar dos benefícios (ou falta deles) do Mercosul ao Paraguai são os próprios paraguaios. Porém, mesmo assim, tenho a minha percepção sobre isso e creio que a integração regional não trouxe ao país os benefícios que tinha o potencial de trazer. Parte de minha crítica se direciona justamente a esse ponto, pois penso que a maneira pela qual a integração foi levada a cabo não foi capaz de produzir benefícios tão significativos aos seus membros. Eu, particularmente, acredito nos benefícios de uma aproximação entre as nações vizinhas, porém, é importante ver COMO essa aproximação é feita (desculpe-me por destacar esta palavra usando letras maiúsculas, é que por aqui este é o único recurso que tenho para fazê-lo!). No caso do Mercosul, é provável que esta aproximação não tenha ocorrido da melhor maneira possível.
      B) Não sugiro nada para substituir o presidencialismo! Eu acho até que este é o modelo mais viável para nós aqui da região. Minha crítica no texto não foi ao modelo presidencialista em si, mas à maneira que muitos chefes de Estado têm exercido seu poder na região.
      C) No Paraguai, conheço Assunção e algumas cidades em seus arredores, como Itá, Caacupé, Yaguarón, entre outras (sem falar em Ciudad del Este, que, como estive só de passagem e foi há muito tempo, não posso falar muito). Minha passagem pelo Paraguai teve duas motivações principais: conhecer melhor o país (ou melhor, parte dele, do ponto de vista turístico) e coletar informações para a pesquisa que estava desenvolvendo pela universidade. Sobre esta última, se lhe interessar, tenho um artigo disponível numa revista eletrônica, que fala um pouco do Paraguai no Mercosul. Não consigo postar o link direto do artigo aqui, mas se você tiver interesse, eu lhe explico como acessá-lo. A revista é recente, se chama Enclave/Feneri, voltada às Relações Internacionais.
      Bem, espero ter esclarecido melhor algumas ideias. Obrigado por ter aberto este diálogo comigo, para mim isso é algo muito importante e proveitoso. Será um prazer continuar esta conversa! Grande abraço!

  2. Tácito Loureiro disse:

    Prezado Paulo Mortari A. Correa,

    Muito agradecido pela resposta!

    Agora, fico a pensar: há uma melhor maneira possível à integração? Será? Qual? Algum exemplo?

    Em quais regiões há o Presidencialismo e os(as) Presidentes(as) são bons, por exemplo?

    Interesso-me sim pela publicação. Pode enviá-la, por favor, ao e-mail: tacito.adv@hotmail.com

    Passei por 35 cidades paraguaias, mas, mesmo assim, penso que não as conheço. Porque a realidade me parece algo dinâmico e complexo, e demanda mais tempo para ser melhor decifrada.

    Obrigado pelas considerações!

    Ah, por fim, uma dúvida: indentificou-se como ”brasileiro nato” por quê? O que é um ”brasileiro nato”?

    Saudações,

    Tácito Loureiro

    • Paulo Mortari disse:

      Eu é que agradeço pela oportunidade!
      Bem, continuando nossa conversa, penso que faltou à integração aqui no Cone-Sul mais iniciativas fora do âmbito comercial e econômico. Faltou fomentar a cooperação em outras áreas, incluindo a cultural. Não sei se é possível identificarmos um modelo já existente para aplicarmos no nosso caso do Mercosul, pois nossa realidade é muito diferente das demais regiões do mundo. A União Europeia, por exemplo, é considerada o exemplo mais avançado de integração, porém, nem por isso poderia ser totalmente adotado aqui em nosso continente, pois temos uma realidade e um processo histórico muito diferente do deles (além do fato de eles agora estarem passando por maus momentos, né). Na verdade, o que eu queria é ver um envolvimento maior da sociedade como um todo no Mercosul. Não vejo essa integração como algo que envolva as pessoas ou que tenha grande significado em suas vidas. Parece ser um processo muito reservado a políticos e altos comerciantes, por isso acho que o bloco não avançou como poderia.
      Sobre presidencialismo, não sei a sua opinião, mas tenho certa admiração pelo Uruguai. Tenho gostado de como eles vêm andando nos últimos tempos, sendo um dos países menos corruptos da América Latina e com bons níveis de desenvolvimento (inclusive, de desenvolvimento humano). O Chile é outro país pelo qual tenho certa admiração, apesar de preferir muito mais a Michelle Bachelet do que o atual presidente, Piñera. Creio que o presidencialismo tem dado bons resultados nestes dois países.
      E é interessante você conhecer tantas cidades no Paraguai! Você é de lá? Bem, e eu também acho que não posso dizer que conheço estas cidades que listei. “Conhecer” foi maneira de dizer que estive lá, mas concordo com você, é preciso muito mais tempo e disposição para dizer que, de fato, conhecemos um lugar. Aproveito para dizer que eu gostei muito do que visitei no Paraguai! Me senti muito bem no país, uma sensação que julgo fundamental quando conhecemos terras novas.
      Agora sobre eu ter me identificado como brasileiro “nato”. “Nato” é um termo que consta em nossa Constituição para designar as pessoas que nasceram em solo brasileiro e/ou são filhos de brasileiros (na verdade, essa é a explicação resumida, né). Eu usei essa palavra para dizer que eu não tenho nenhum parentesco com o Paraguai. Como foi a minha primeira contribuição ao site, achei que essa informação pudesse ser útil para deixar claro meu ponto de vista. Assim, meu envolvimento com o Paraguai se dá justamente por questão de destino!

      Sobre o artigo, eu o encaminharei por e-mail, explicando melhor do que se trata.

      Abraço e obrigado pela oportunidade de aprofundarmos nossa conversa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s