Os cuidados na luta contra o preconceito em quatro reflexões sugeridas

Por Paulo Mortari A. Correa

Escrevo este breve texto motivado pela leitura de alguns comentários postados aqui no blog ao longo de sua existência. Desejo, por estas palavras, apontar algumas ideias que julgo importantes àqueles que se propõem a pensar a questão do preconceito no relacionamento entre as nações paraguaia e brasileira, um dos temas com os quais o Núcleo trabalha. Meus argumentos estão organizados em quatro grupos distintos, apresentados a seguir. 

1) “Luz e sombra” na tarefa de conter os preconceitos:

Há, pelo menos, dois meios viáveis para se transformar uma relação preconceituosa entre nações, os quais apelido de esclarecimento e denúncia.

O esclarecimento diz respeito à abertura da cultura, dos costumes, das tradições e da história de um povo ao conhecimento do outro, gerando um intercâmbio cultural de tamanha magnitude que rompa a barreira da ignorância existente entre os dois lados e, consequentemente, torne atos discriminatórios menos suscetíveis de ocorrerem. A ignorância é uma das fontes de subsistência do preconceito, sendo o esclarecimento um dos meios mais eficazes para neutralizá-la.

A denúncia, por sua vez, diz respeito ao reconhecimento dos casos de preconceito e discriminação envolvidos na relação entre os povos, de modo que eles não sejam negligenciados ou esquecidos. É importante não abandonarmos tais casos à sombra de nossa atenção, pois isso pode fortalecê-los ou até torná-los aceitáveis. Em outras palavras, quando deixamos de notar atitudes preconceituosas, passamos a tolerá-las e, assim, permitir que sejam algo normal.

O ideal é que haja um equilíbrio no uso destes dois meios. Praticar apenas a denúncia é prejudicial, pois, deste modo, deixa-se de oferecer alternativas à visão estereotipada que se critica. Por outro lado, não reconhecer a discriminação é não enxergar uma parte incômoda da realidade, e deixar de enxergá-la não a fará deixar de existir! Os dois meios apontados são, portanto, igualmente importantes, sendo insuficiente trabalhar com um em detrimento do outro.  

2) O cuidado com a embriaguez:

Apesar de ser muito nobre e digno defender uma cultura contra a discriminação de outrem, há sempre o risco da embriaguez. Uso este termo em referência a aqueles que, de tão apaixonados por sua luta, acabam enxergando preconceito em tudo. E assim, embriagados pelo seu senso de justiça, acabam por considerar qualquer coisa intolerável. O provável resultado disso é o vício pelo que se critica: o defensor combate algo que, no fundo, não deseja que termine jamais, pois, se assim for, termina também a razão de sua luta (e, porque não, de sua existência!).

É negativo, também, conferir tanta importância ao que os outros dizem a nosso respeito. Nós não somos, necessariamente, aquilo que os outros pensam da gente – a menos que desejemos ser!

É importante manter a sobriedade! Para tanto, as críticas – principalmente aquelas feitas com boas intenções, que sugerem que estamos exagerando em nossa postura perante possíveis casos de preconceito – são sempre bem vindas. Ao aceitarmos críticas, temos menos riscos de sermos vítimas da paranoia! Devemos nos lembrar disso: os excessos são tão negativos quanto a indiferença.

3) Quando o ataque é escolhido como melhor defesa:

É muito importante que, no combate ao preconceito contra um povo, não se discrimine o outro.

Em termos práticos, é como se, para combater a discriminação que muitos paraguaios sofrem no Brasil, começássemos a denegrir a imagem do povo brasileiro. Neste caso, a defesa da cultura paraguaia se faria pelo ataque à brasileira. Esta, infelizmente, é uma estratégia muito comumente utilizada pelos seres humanos: para exaltar o que é seu, menospreza o do outro. Isso deve ser evitado, dos dois lados! Não se combate preconceito com mais preconceito. Não se defende uma cultura através do ódio por outra. Isso está na contramão do bom convívio que se deseja estabelecer entre os povos.

4) Sobre aquela famosa e aclamada guerra:

Deixei para o final um assunto particularmente delicado a nós, brasileiros e paraguaios. É sobre a tal Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, ou, simplesmente, Grande Guerra. Uma coisa que observo é que há muita gente em nossos países se odiando por causa dessa guerra até hoje, mesmo tendo se passado mais de 140 anos desde o seu fim.

Este, infelizmente, é um capítulo em nossa história ainda mal resolvido. O assunto é tão extenso que seria preciso reservar outros textos exclusivamente a ele. Porém, minha intenção aqui é dizer que não é justificável haver qualquer tipo de ódio por ambas as nacionalidades em decorrência desta guerra. Não é possível que algo que aconteceu há quase um século e meio possa ter comprometido para sempre a relação de uma nação com a outra! As presentes gerações, que de nada influenciaram nos rumos desta guerra, devem carregar tamanho fardo nos ombros?

O que penso aqui é que é necessário haver uma investigação clara sobre os fatos, isso porque versões extremistas (e nacionalistas) da guerra continuam fomentando atitudes hostis entre muita gente em nossos países. Felizmente, nas últimas décadas, pesquisadores sérios têm se dedicado a estudar minuciosamente este trágico evento, afastando-se tanto da visão “heroico-nacionalista” como da versão “vitimista e dependentista”. Seus estudos são mais do que urgentes para fornecer uma nova interpretação ao que foi a guerra, uma interpretação mais comprometida com a realidade do que com as paixões. Isso, sem dúvida, ajudará ambos os povos a definitivamente virarem esta página da história e se dedicarem mais ao presente e ao futuro.

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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6 respostas para Os cuidados na luta contra o preconceito em quatro reflexões sugeridas

  1. Enrique León disse:

    Muito bonito o seu texto Paulo. Concordo com você em vários aspectos, mas também, me vejo obrigado a discordar em outras.
    É muito difícil lutar contra a discriminação aqui no Brasil, e acredito que em qualquer parte do mundo também o seja, existe una imagem criada pelos meios de comunicação, principalmente contra os paraguaios, onde simplesmente, quando se referem a qualquer exemplo de ineficiência, corrupção, sujeira, pirataria; isso, só por citar alguns dos adjetivos que comumente se escuta falar na mídia, fazem relação direta com o povo paraguaio.
    Com isso eu me pergunto, como as pessoas comuns, que dificilmente tem a oportunidade de conhecer o Paraguai, nem sequer uma cidade, e muito menos, ter a oportunidade de conviver com uma pessoa natural do Paraguai, irão criar uma imagem do cidadão daquele pais “IRMÃO”?.
    Uma das primeiras lutas que devem ser iniciadas é contra esses meios, luta que cada vez se torna mais difícil, devido ao poder econômico que eles possuem, que só por essa causa já está quase perdida. Outro lugar onde podemos ter, pelo menos, um pouco mais de chance são as escolas, colégios e universidades, onde teoricamente o dialogo e discernimento é mais fácil de conviverem.
    Enfim, existem muitos outros pontos que podem ser mencionados, mas como você disse acima, precisamos dedicar uma espaço, e tempo, somente para isso.
    Para finalizar, parabenizo a sua iniciativa e os textos que dedica ao assunto, de muito interesse por sinal

    • Paulo Mortari disse:

      Olá, Enrique,

      Muito obrigado pelo comentário, isso certamente enriquece muito o debate!

      Eu concordo com o que você disse sobre os meios de comunicação. Muitos deles reproduzem de forma automática preconceitos e estereótipos acerca do povo paraguaio, relacionando-o com todos esses problemas que você apontou – pirataria, corrupção, etc. No jornalismo esportivo, por exemplo, isso é particularmente frequente – o corriqueiro uso da expressão “cavalo paraguaio” não deixa dúvidas. Eu acho que, pelo alcance e influência que estes veículos de mídia têm, é bastante sério o modo pelo qual eles se referem ao Paraguai e seus nacionais. O que às vezes pode parecer, em primeiro momento, algo inocente e despretensioso, pode ajudar a consolidar uma cultura de discriminação que, por sua vez, afetará diretamente a vida de algumas pessoas. Ninguém melhor do que os paraguaios residentes aqui no Brasil – principalmente nas grandes cidades afastadas da fronteira – para dizer isso. Muitos deles já devem ter vivenciado ou visto, em variados graus, alguma situação de discriminação, decorrente do simples fato de terem nascido no Paraguai.

      Os veículos de comunicação devem ter mais responsabilidade no exercício de suas funções. Nós, por outro lado, devemos ter sempre um olhar crítico ao que nos é mostrado. Eu diria que, sobre isso, é preciso praticar o que chamei de denúncia no texto. Nem digo no sentido jurídico da coisa, digo no sentido de trazer à luz estes casos de preconceito veiculados por aí. Eu sei que em boa parte das vezes, jornalistas, por exemplo, usam esta associação Paraguai-falsificação sem pensar na besteira que estão dizendo. Por isso, é importante que divulguemos isso, pois, assim, deixamos claras as más consequências que suas palavras podem provocar, permitindo, por conseguinte, que muita gente reflita e mude sua mentalidade sobre a questão.

      Por isso, acho muito importante o trabalho feito aqui pelo Núcleo, tanto de divulgar a real cultura paraguaia como de colocar em evidência os casos de discriminação vistos por aí. Sei que há muito o quê se fazer, mas isso já é um começo importante.
      Não se trata de mero nacionalismo ou de negar os problemas que há no Paraguai. Trata-se de romper com preconceitos e estereótipos que impactam diretamente na vida de muita gente. Trata-se de respeito, acima de tudo.

      Mais uma vez agradeço por sua contribuição, Enrique. Estou sempre aberto ao diálogo e a possíveis esclarecimentos.

      Grande abraço!

      • Enrique León disse:

        Prezado Paulo.

        Vou pegar somente uma parte das ideias que você comentou, a parte que fala sobre o olhar crítico ao que nos é mostrado.
        Esse olhar crítico tem uma grande escassez na maior parte da população, e em muitos casos, independente do nível de formação acadêmica, ou posição econômica a que pertencem, chega parecer quase inquestionável o que é falado na mídia, e as pessoas se apropriam disso com um fanatismo desmedido até o ponto de não admitirem outro tipo de pensamentos nem questionamentos. Bom, para não me prolongar muito, já me tocou de perto escutar comentários, ou observar atitudes discriminatórias aqui no Brasil, no começo até me pareceu muito chocante, mas com o tempo, fui reorganizando minhas ideias e formando minha própria concepção do por quê essa atitude de muitas pessoas, e hoje em dia, esse “choque” é muito menor.
        Também devo salientar a atitude de verdadeira apertura que muitas famílias demonstram com o povo paraguaio, igualmente, também já me tocou dividir jornadas com esse tipo de pessoas, e isso é muito motivador e ajuda a perceber que nem todo está perdido, e realmente aquelas pessoas criaram sua própria concepção do povo paraguaio, sem precisar comprar falsas propagandas.
        Seguiremos “lutando” contra essa doença que é a discriminação, não só contra o povo paraguaio, se não contra todo tipo de manifestação dessa categoria, não é fácil, e cada vez será menos, mas não por isso devemos considerar uma causa perdida.

        Um abraço
        Enrique.

  2. Tcito Loureiro disse:

    Meu nome e-mail: tacito.vida.inteligencia@gmail.com Date: Mon, 4 Mar 2013 22:21:29 +0000 To: tacito.adv@hotmail.com

  3. Paulo Mortari disse:

    Olá, Enrique,

    Acho que é extremamente valioso você dividir sua própria experiência, como você fez brevemente em seu comentário. Isso é uma evidência de que estamos falando de consequências reais que a veiculação dessa visão estereotipada e preconceituosa acerca do povo paraguaio provoca, afetando, de fato, a vida de várias pessoas.
    E você está certo, a mídia realmente tem uma influência muito forte na formação de opinião em uma sociedade. Por isso é muito válido que demandemos mais responsabilidade por parte dos profissionais que atuam nesse meio, de modo que eles evitem reproduzir conceitos equivocados que, por sua vez, fomentem discriminação e injustiça com gente que nada fez para merecer isso.
    Também é muito importante a ressalva que você fez sobre a receptividade que algumas famílias aqui demonstraram com relação a você e outros de seus conterrâneos. Dizer que o povo brasileiro é preconceituoso com relação ao paraguaio seria outro preconceito, sem dúvida!
    Parece que estamos de acordo, também, com o fato de que, no final, não se trata pontualmente da luta contra a discriminação ao paraguaio, mas, sim, a favor do respeito a qualquer ser humano. Se existe algo que não tem fundamento é hostilizar uma pessoa apenas pelo fato de ter nascido em outro país.
    Enfim, espero, de coração, que este quadro possa ser revertido, Enrique. E espero, de alguma forma, poder contribuir com isso.

    Abraço e obrigado pelo diálogo,
    Paulo

  4. SOFRO PRECONCEITO NO BRASIL POR TER NOME SEMITICO(JUDEU),POR SER FILHOS DE NORDESTINOS,E POR SER PARDO,SÓ FALTAVA SER HOMOSEXUAL TAMBÉM O QUE GRAÇAS A DEUS EU NÃO SOU.

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