Eleições no Paraguai: a esquerda fragmentada e o retorno das velhas forças

Iuri Müller

Neste domingo, o Paraguai escolhe o novo presidente, senadores e deputados | Foto: Bicentenario del Paraguay/Divulgação

Neste domingo, o Paraguai escolhe o novo presidente, senadores e deputados | Foto: Bicentenario del Paraguay/Divulgação

O panorama das eleições gerais que ocorrem no Paraguai no domingo 21 de abril de 2013 pode apontar tanto a redenção do partido mais tradicional do país, afastado momentaneamente do poder, como, ainda que com menos chances, a manutenção do Partido Liberal na presidência da República. Difícil mesmo é imaginar uma vitória – mesmo simbólica – da esquerda paraguaia nas eleições em que os partidos menores se organizaram de forma fragmentada após o golpe de Estado que derrubou Fernando Lugo e o curto mandato do liberal Federico Franco.
Basta abrir as páginas de um jornal paraguaio e direcionar os olhos para uma das pesquisas eleitorais recentes para que surja o questionamento: para onde foram os votos de Fernando Lugo, eleito em 2008 por mais de setecentos mil paraguaios? O triunfo de Lugo, há cinco anos, foi marcante por significar a posse de um presidente que não fosse colorado, liberal ou militar, algo inédito no país, e por dar esperanças de reformas consistentes em áreas como a saúde e a questão agrária.
De qualquer maneira, a verdade é que Lugo não subiu sozinho ao poder. Levou com ele, na ampla “Aliança Patriótica para a Mudança” – a base aliada que sustentou a sua candidatura – setores do Partido Liberal e partidos de esquerda com práticas e visões distintas sobre a política do país. Foram três anos de reformas parciais, conflitos internos e escândalos religiosos que desgastaram um mandato frágil. Em junho de 2012, a articulação política manejada pelos partidos tradicionais conseguiu a destituição do presidente – para muitos, um golpe de Estado que, com um par de enfeites, passou a ser chamado de medida constitucional.
À época do impeachment de Fernando Lugo, as eleições deste abril já estavam próximas. Lugo foi impedido de participar do pleito e os partidos que formavam a maior parte do bloco de esquerda se dividiram. Mais do que isso, a “Aliança Patriótica”, já sem a representação liberal, quebrou ao meio. Nas eleições de domingo, fragmentos da esquerda que apoiou Lugo em 2008 podem ser vistos em duas frentes: na coalizão “Avança País”, que escolheu o comunicador Mario Ferreiro como candidato, e na Frente Guasú de Aníbal Carrillo, que recebeu apoio público e explícito de Lugo.
Para sociólogo, golpe de Estado e disputas internas enfraqueceram alternativas eleitorais
Tanto Ferreiro como Carrillo, no entanto, parecem longe de contar com qualquer expectativa de vitória. No atual panorama, fica difícil cogitar até mesmo uma votação expressiva. Ferreiro, conhecido no país como apresentador de um programa de televisão, poucas vezes alcançou os 10% de intenções de votos nas simulações. Aníbal Carrillo fica bem abaixo desse índice. Para o sociólogo Marco Castillo, de Assunção, “o panorama seria outro” se Lugo tivesse completado o mandato. Ainda assim, Castillo reconhece que as lutas internas e a fragmentação das candidaturas comprometeram de forma quase irreversível as eleições.

Quando perguntado sobre a tentativa de Fernando Lugo, mesmo afastado da presidência, para unificar os interesses da esquerda, Castillo opina que o alcance do ex-presidente é limitado: “a candidatura de Lugo (em 2008) não foi uma construção baseada na mobilização das massas, ainda que tivesse, sim, apoio popular. Mas ele venceu as eleições muito pelos amplos apoios políticos que recebeu”. Durante o mandato, Lugo pôde de fato avançar na solução de antigos problemas do país – como na reforma da saúde pública – e fracassou em outros, como no intento de democratizar a distribuição de terras e de criar solidez política para um governo que esteve desde a eleição ameaçado de ruir.

Hoje, o ex-presidente concorre como senador pela Frente Guasú – é o primeiro da lista da frente e, se não houver grandes surpresas, deve ser eleito. Desde o Senado, Fernando Lugo talvez observe a ressurreição do Partido Colorado, a maior força política do país. Os colorados vinham perdendo votos com o passar dos anos, mas mantiveram a presidência até 2008. No domingo, as pesquisas indicam que o empresário Horacio Cartes deve recolocar o partido no mais alto posto político do Paraguai. Embora as simulações tenham mostrado números distintos e uma variação bastante grande, em pouquíssimos casos Cartes não superou o candidato do Partido Liberal, Efraín Alegre.

Partido Colorado: sessenta anos no poder, uma breve pausa, e as eleições de 2013
O Partido Colorado pôde se manter no poder por seis décadas consecutivas no Paraguai. Governou em tempos de democracia e em tempos de ditadura, bancou o regime de Alfredo Stroessner e permaneceu na presidência após a saída do ditador. Como todo grande partido, enfrenta crises internas. Para 2013, encontrou na figura de Horacio Cartes – empresário rico, dono de grandes empresas no país e de negócios fartos no exterior – uma alternativa ao perfil do candidato político com prestígio decrescente. No entanto, se o nome de Cartes serviu para unificar o partido, precisará de muito mais para tranquilizar o Paraguai.
Cartes encontra enorme oposição nos movimentos sociais campesinos. É acusado de receber milhares de hectares de terra de forma ilícita nos anos 1980, e não desperta qualquer espécie de esperança para melhores condições de vida no campo. Para o sociólogo Marco Castillo, “os campesinos vão voltar à luta de sempre. Com Lugo é que esperavam uma postura distinta do governo”. Castillo opina que tanto a vitória de Cartes como de Efraín Alegre podem fazer com que o país “caia em erros como na década de 1990”, tempo de ascensão neoliberal no continente.
Menos de um ano após ter a democracia trincada, o Paraguai volta às urnas para definir não só o novo presidente, mas também a situação política do país na América Latina e a permanência no Mercosul. Segundo Castillo, as eleições de domingo vão demonstrar a necessidade de se dar “passos firmes em direção a uma democracia realmente séria”. Resultados à parte, parece unânime que, vença Horacio Cartes ou Efraín Alegre, o novo presidente irá encontrar um Paraguai com feridas abertas no campo e na cidade.

Fonte: Sul21:
http://www.sul21.com.br/jornal/2013/04/eleicoes-no-paraguai-a-esquerda-fragmentada-e-o-retorno-das-velhas-forcas/#.UXB-QZySjcY.facebook

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O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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