Entrevista exclusiva com o escritor Augusto Roa Bastos

Bastos é considerado um dos maiores escritores latino-americanos, ao lado de nomes como Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges e Cortázar.
POR LUÍS ANTÔNIO GIRON – Revista Época

Roa
Nascido em Assunção, Paraguai, desde pequeno Augusto Roa Bastos teve contato com os mais variados estilos de literatura. Durante a sua infância em um engenho de açúcar em Iturpe (Guairá), sua mãe lia trechos da Bíblia e de obras de Shakespeare, e lhe contava lendas e mitos indígenas na língua guarani. Já no colégio, seu tio o iniciou na leitura de clássicos espanhóis. O primeiro livro, a coleção de contos El trueno entre las hojas, viria durante o exílio em Buenos Aires provocado por um governo militar repressor. Com fortes convicções ideológicas, foi voluntário na Guerra do Chaco, correspondente na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a exilar-se na Argentina e depois na França, onde lecionou literatura Hispano-Americana e Língua e Cultura Guarani na Universidade de Toulouse. Em 1982, teve a sua cidadania paraguaia cassada, mas obteve um ano depois a cidadania espanhola. Com o fim da ditadura de Stroessner em 1989, retornou a Assunção, onde vive hoje. Durante a sua vida, trabalhou com jornalista, correspondente, roteirista de cinema, carteiro, dramaturgo e professor.
Doutor honoris causa por diversas universidade hispano-americanas, européias e norte-americanas, Roa Bastos tem a sua obra traduzida para 25 idiomas. Considerado um dos mestres literários do século, recebeu em 1989 o Prêmio Cervantes, o mais importante concedido a escritores de expressão hispânica. O escritor, de 86 anos, esteve em São Paulo para lançar o livro ‘Vigília do Almirante’ e concedeu uma entrevista à ÉPOCA.

ÉPOCA – Que motivos o levaram a interromper a literatura quase 20 anos?
Augusto Roa Bastos – Na realidade, foram interrupções das edições, porque nunca deixei de escrever. Estava com vários textos, trabalhando um pouco em cada um, fazendo algo que considerava novo para mim, uma espécie de desafio pessoal: ver duas ou três histórias sob sob óticas distintas, com linguagens diferentes, como são ‘El Fiscal’, ‘Madama Sui’, ‘Vigília do Almirante’; cada uma corresponde a uma linha ou subgênero distinto. Além disso, o trabalho docente em Toulouse me consumia muito tempo e dedicação. Por outro lado, estão os compromissos sociais de um escritor que não convém descuidar. O contato direto com as pessoas é fundamental. Por isso, apesar de meu estado de saúde um tanto precário, decidi formalizar esta viagem a essa São Paulo que me encantou. Eu já havia estado antes na cidade, mas dessas viagens que vão do aeroporto ao local específico; desta vez, foi um pouco mais calmo, Josely e Francisco nos levaram para conhecer um pouco da cidade, famosa por suas proporções. Tudo parece gigantesco, imponente. Aproveitamos muito a viagem.

ÉPOCA – Como o senhor define seu trabalho literário? Acredita que história e poesia são elementos distintos de sua escrita?
Bastos – È muito difícil para um autor rotular-se. Primeiro, por uma questão de pudor que tenho constantemente e me faz ser muito crítico com tudo o que escrevo. Poderíamos fazê-lo ao contrário, se quiser. Poderíamos fazer o que meu tio chamava de ‘teologia negativa’, que é definir um objeto pelo que não é. Não sou historiador. A história requer um método próprio, documentação, testemunhos, reconstrução seqüencial e ordenada de fatos relevantes do passado. Respeito profundamente o trabalho dos historiadores, mas o escritor, na minha opinião, tem outra tarefa e outro enfoque. A imaginação cria e recria esse passado aparentemente definido. Nada muda tanto quanto o passado, se diz por aí, creio que justamente em ‘Vigília do Almirante’. A metamorfose é a qualidade do conhecimento e a história é uma forma de conhecimento. A poesia facilita o discurso literário porque lhe outorga uma cumplicidade de sentidos. Além disso, a poesia serve de ponte entre a imaginação do autor e do leitor, uma ponte mais segura que as descrições ou formulações mecânicas que nos dão uma forte dose de segurança, mas ao mesmo tempo menoscabam ou lhe põe uma barreira para a criação, no sentido mais amplo da palavra. Nesta ordem de coisas, entre a verdadeira história como disciplina e a literatura, há um abismo. Perdão por me estender, mas quero declarar que não estou insinuando que uma seja menor que a outra, simplesmente assinalo diferenças.

ÉPOCA – Que livro está escrevendo atualmente? Pode nos adiantar algo?
Bastos – Na verdade, trabalho em duas obras ao mesmo tempo. Por um lado , estou terminando de polir uma série de mil aforismos (essa seria a meta) como pensamentos muito condensados. Quero que o livro se chame ‘Provérbios rebeldes’, mas me falta acrescentar uma boa porção de aforismos, frases e pensamentos. Afortunadamente, Alejandro (Maciel) está me ajudando na seleção, porque em ‘Vigilia’ me escaparam uns tantos na primeira versão. Não sei se alguém, alguma vez, lerá os mil, mas já sabe que a esperança é a última que morre…
Por outro lado, estou arredondando essa espécie de plano geral que requer uma obra antes de sua execução final. Se trata de uma novela que me ronda, com um título brumoso: ‘Um País Atrás da Chuva’. Quando era menino, em Iturpe, que é o povoado do interior onde cresci, admirava a paisagem nos dias de chuva, e esse véu tênue da chuva que se interpunha entre minha varanda e o campo o tornava incerto, distante, intangível. Assim vejo meu país: atrás de uma cortina que por momentos o recorta, e em outros momentos o asfixia. E o sujeito fica esperando a luz do sol que inexoravelmente virá nos livrar desse pesadelo de não reconhecermos uns aos outros. Na história há uma menina. Os olhos de uma menina cheia de sonhos que vão construindo algo que, no entanto, não existe no presente.

ÉPOCA – Desde ‘O Eu Supremo’, seu livro mais conhecido no Brasil, o que mudou em sua obra?
Bastos – Bom, tudo e nada. Digo tudo porque seria terrível que o mundo tenha mudado tanto desde a década de 70 e eu seguisse sendo o exatamente o mesmo de então. Ou teria estado em uma cápsula de cristal ou ausente do mundo, e isso não é possível. De maneira que mudaram muitas coisas. Quero pensar que algumas melhoraram e outras, bom, cada um faz o que pode…
Por outro lado, digo nada porque há convicções que não retrocederam em mim apesar de tanto argumento sociológico e econométrico. Continuo achando que o exagero do neoliberalismo, como todo excesso, é nocivo para o conjunto. Está bem, há gente que melhora, mas à custa de milhares que tiveram suas condições de vida pioradas, degradando-as a extremos e escalas impenssáveis. Se pregam aos quatro ventos as aparentes virtudes do sistema enquanto se minimizam os custos. Países inteiros estão sumindo na miséria mais humilhante. Por cada país que consegue levantar-se, caem dez. Não sei, mas tudo parece um grande desatino, não vejo a solução por esse lado. Continuo acreditando que os bens devem ser distribuídos mais eqüitativamente se não queremos terminar mal. E quanto à escrita, sigo fiel à consigna que me trouxe Josefina Plá, que foi amestra de nossa geração: não ceder um milímetro de autocrítica. Continuo destruindo quase mais do que escrevo. Há um trabalho contínuo de criação e derrubada. Não conheço outra forma de trabalhar neste ofício.

ÉPOCA – Em ‘Vigília do Almirante’, existem passagens em castelhano antigo. Como o senhor trabalhou com isso: foi invenção ou pesquisa linguistica?
Bastos – Um pouco de cada coisa. As invenções lingüisticas são parte do jogo literário, uma parte vital. Nós escritores devemos tentar chegar até os limites da linguagem, se é possível. Essa tarefa fascinante de criar um nome para cada coisa como se fôssemos Adão depois do dia da criação, não acabou. A realidade não é um ente fixo e imutável, por que deveria cair fossilizado na linguagem, que é o seu reflexo? O resgate do passado falado é outra forma de espionagem da imaginação. Certamente, um pode fixar a meta de recriar as formas gramaticais e sintáticas do espanhol do século XVI, mas não deixaria de ser uma impostura. Melhor julgar livremente com a idéia que teremos dele a partir da leituras desses fascinantes diários de viagem e dos primeiros cronistas das Índias. Lembro ter lido muitos desses registros antes de começar a novela. Talvez alguns giros e modos tenham me contagiado. Mas o essencial, inventei livremente.

ÉPOCA – Por que Colombo como personagem? Seu personagem ma parece muito simpático, e isso não é comum em um autor latino-americano…
Bastos – Por que não Cristóvão Colombo? É um personagem de estatura mitológica. Nem sequer sabemos ao certo onde e quando nasceu, onde está enterrado.. e há vazios em sua biografia que os historiadores trataram de esclarecer com mais imaginação do que dados. Com isso, Colombo esquiva a história e fica mais próximo da literatura. De maneira que teremos um herói de dimensões épicas com um passado incerto, condições que facilitam muito a tarefa literária. Transformá-lo em personagem é um trabalho relativamente fácil; depois vem a carga emocional e conteúdos que se acumulam em seu trajeto. Pensemos que se trata nada mais nada menos que do sucesso que abre a Modernidade: o descobrimento ou encobrimento da América. Colombo já era seu próprio personagem muito antes que alguém escrevesse sobre ele. Seus ‘diários’ revelam uma personalidade que mescla o ingênuo com o maravilhoso, rasgos vilões de cobiça com a magnanimidade de uma figura à escala humana, realizando uma proeza quase divina. Há um jogo de contrastes no perfil no navegante. Além disso, a época está assinalando o futuro do homem: a curiosidade e o desejo de ampliar os limites do mundo conhecido. Em outro veículo de comunicação me disseram que eu o havia pintado como uma espécie de impostor; como um personagem antipático. Como vê, a figura é tão poliédrica que que cada um o vê de modo diferente. E tudo bem.

ÉPOCA – O senhor sempre elege personagens que tenham a ver com a história sul-americana. Por quê?
Bastos – Bom, vivo na América do Sul, nasci, cresci, conheci o mundo na América do Sul e muito sobre o latido mais profundo de nossa contradição como continente: junto à miséria endêmica dos trabalhadores agrários de meu país. Meu pai trabalhava em um engenho açucareiro, praticamente todo a vizinhança tinha alguma relação com esse único trabalho no interior. E tudo se movia ao redor do engenho. Desde pequeno buscava permanentemente respostas à mesma pergunta: por que estamos condenados a sofrer tantas privações? Certamente não imanava então o que era o poder. Pouco a pouco comecei a vislumbrar algumas respostas. A doutrina socialista nos abriu um pouco os olhos. Começamos a buscar meios econômicos em toda empresa humana e neste sentido a história da América do Sul é um contínuo curso e recurso entre as classes dominantes e oprimidas. Isso era tangível em minha pequena terra de desdentados filhos de Eva. Estive a par do sofrimento todo o tempo necessário para impregnar-se dele até que se torne inesquecível. Em minha pequena comarca-pátria de Iturpe, experimentei em escala menor o que depois repartiu-se em escala nacional e regional: o ciclo violência/repressão, que é parte do resultado desta equação sem incógnitas.

ÉPOCA – Contemos um pouco do seu cotidiano agora. O senhor vive em Assunção, tem netos…
Bastos – Minha vida cotidiana não tem nada em particular. Eu diria que é demasiada ‘doméstica’ para comentá-la em público. Não tenho netos em Assunção. Todos meus filhos vivem no exterior. Não saio muito, vejo um pouco de TV , basicamente notícias. Vive-se através da TV todos os acontecimentos mais importantes destes ‘tempos modernos’. Trabalho geralmente de manhã, faço uma sesta e depois continuo. Poço dizer que sou feliz, sem remorso.

ÉPOCA – Como aconteceu o diálogo entre os escritores latino-americanos durante o ‘boom’ do realismo fantástico? O senhor fez obras fantásticas também… O que o senhor pensa de Borges, Cortázar, Jorge Amado, Onetti, Llosa…
Bastos – Sempre digo que nossa literatura tem dois autores principais e opostos, ainda que complementares como todos os oposto. Por um lado o autor cosmopolita, da pólis em seu sentido helênico. O Borgel da erudição deslumbrante, o bibliotecário cego que viu por milhares e assinalou uma forma quase arquetípica do ofício de escritor. Por outro lado, está a voz lacônica, seca, concisa do escritor rural Juan Rulfo. Até sua obra é escassa; praticamente dois livros, mas incrivelmente reveladores dessa América marginal e incrustada no ambiente rural. Reconheci muitos aspectos do meu próprio hábitat na obra de Rulfo, o que significa que há uma forte corrente de identidade que poderia servir como nexo entre os marginalizados dessa América do Sul pobre, renegada e embrutecida.
Justamente, obras como ‘Sertão veredas’ de seu genial Guimarães Rosa são melhores vínculos para compreender em todo o sentido da palavra o problema da região. Conheci Guimarães em uma viagem de avião. Conversamos boa parta da viagem, posso dizer que nos conhecemos no Atlântico, porque íamos para a Europa. Ou vínhamos, não recordo exatamente. O que lembro e merece a memória é haver conversado com este autor de voz cadenciosa e lenta que me provocou as mesmas sensações que sua obra. Também conheci Borges, Bioy Casares, Victoria e Silvina Ocampo. Todo esse maravilhosos fervor do grupo ‘Sul’.
A obra de Borges é imensa, não sei se tem fronteiras porque instiga tanto que um perde as proporções do espaço; se poderia dizer praticamente que Borges criou uma topologia especial e ao invés de deixá-la fechada, abriu todos os limites até o infinito. Cada obra de Borges se pode explorar e conectar com múltiplas idéias como uma teia que cresce mais quanto mais se afasta do seu centro. Pensemos em um conto aparentemente simples como ‘El informe de Brodie’ e veremos que liga-se facilmente com a obra de J. Swift no que tenta ser ser uma cópia do reino que descreveu Swift em seu ‘Gulliver’. Também existem referências às ‘Alices’ de Carroll, quando se formula a hipótese um pouco desalentadora de que somos (os humanos) apenas o sonho de alguém. Que se deixássemos de sonhar, desapareceríamos como uma ilusão. Também está presente, um pouco clandestinamente, o pensamento de Berkeley e os empíricos ingleses frente ao racionalismo. Borges nos instiga constantemente a exceder o marco que nos fixou porque no fundo não nos fixou nenhum, mas a ilusão que cria nos faz pensar que delimitou o ambiente topológico com precisão. Admiro profundamente a obra de Borges. Como não reconhecer um autor que tantos caminhos abriu à nossa literatura hispano-americana?
Cortázar, que conheci um pouco menos, tem contos maravilhosos. Onetti é outro universo cheio de enigmas; estão esses personagens cruamente retratados que são os habitantes de Santa Maria, cidade onde todos os personagens se perdem como se fossem desabar em meio ao pessimismo de um ambiente onde são possíveis apenas os pesadelos. Jorge Amado tem um livro ‘Siesta’ que estive relendo há pouco tempo; sabe que este mundo das favelas já está retratado nesses narrações que têm uma garra incrível? Certamente, vocês devem sabem melhor do que eu, ‘Siesta’ é uma obra de juventude e, contudo, muito atual.

ÉPOCA – Como o senhor vê hoje a situação da literatura latino-americana? Há novos talentos no Paraguai, por exemplo?
Bastos – Não quero dar nomes para não excluir. È muito difícil escrever uma lista de autores porque se um nome é esquecido, acontece o mesmo que nos contos de infantis em que a fada madrinha que não é convidada a uma festa se transforma em bruxa e nos de enche de maldições e opróbrios. Mas posso recomendar um texto: ‘Literatura paraguaia 1900-2000’ de Victorio Suárez. É muito completo e traz um panorama bastante completo de autores desse século.

ÉPOCA – E a situação mundial? Como um homem de letras como o senhor analisa o crescimento do Império Americano? Há salvação para as culturas locais com a globalização?
Bastos – Sempre há salvação, até o inferno deve ter recursos burocráticos para atenuar algumas penas eternas. Dizer ‘condenar’ e ‘eterno’ já sugere uma forma de contradição, não é verdade? O delito não pode ser eterno, se cometido em um momento, ou em vários, mas isso abrange uma parte do enigma do tempo e como tal deveria pagar uma condenação delimitada. Dizer ‘para sempre’ é desalentador até para os virtuosos. Se o delito foi fugaz, a pena não pode ser eterna. Ou melhor, ‘provisoriamente’, já que todo ser humano é por definição fugaz e transitório. Existem escritores que vêem como sinal a hegemonia desse ou daquele imprério. Eu, ao contrário, creio que todo império é em si mesmo uma doença do poder. No século de Dumas (refere-se ao escritor francês Alexandre Dumas Filho, autor, entre outros, do romance ‘A Dama das Camélias, de 1848) se dizia que a tuberculose, ainda que ameaçasse a vida, embelezava as damas outorgando-lhes certo rubor, fruto da febre constante. E além disso, parece que as fazia esbeltas e com a aparência brilhante. Mas era uma doença fatal! O mesmo lhe posso dizer sobre os impérios: a história já nos ensinou que repetidas vezes como nasce, cresce, chega ao apogeu e declina um império. A magnífica obra de Gibbon que nos retratou de uma vez e para sempre o ciclo dos impérios ao descrever os sinais e os sintomas da agonia do Império Romano (refere-se ao historiador inglês Edward Gibbon, autor de ‘Declínio e Queda do Império Romano’). Não creio que o Império Americano tenha uma sorte melhor, então por que sacrificar milhares de nações, asfixiar seu progresso, decidir seus destinos em nome de algo que finalmente irá perecer? Não me parece bom negócio. Creio que a diversidade cultural seguirá definindo alternativas à homogeneidade apática da comida fast food, os refrigerantes e o cigarro eternamente aceso. A vida não pode permanecer eduzida a essa caricatura. Nós, países do segundo, terceiro e quarto mundo, também temos valores e devemos defendê-los quando isto significar um benefício para a civilização, que já se encarregou de arrasar vários impérios.

ÉPOCA – O senhor acompanha ainda a situação política latino-americana? Em que ponto nos encontramos agora?
Bastos – Bom, quase todos os países se encontram na dura tarefa de consolidar as democracias. Os nostálgicos do passado sempre usam o mesmo argumento: ‘nos tempos da ditadura estávamos melhor’ porque a liberdade é um bem adquirido que apenas se sente quando não existe. Sua presença é natural, sua ausência, um sofrimento para todos os que respeitam a própria dignidade. Toda a América do Sul estava relativamente melhor em décadas passadas. A região está sofrendo uma crises em igual, mas a democracia não é a responsável, e sim as condições condições sócio-econômicas, que mudaram drasticamente. Se naqueles tempos de bonaçafinanceira era difícil suportar uma ditadura, imagine o que seria sob estas novas condições. Cada passo adiante que o homem dá, o faz temendo, vacilando e olhando para trás, como a mulher de Lot (refere-se ao trecho da Bíblia – Livro de Gênesis – em que a mulher de Lot, sobrinho de Abrão, transforma-se em estátua de sal ao olhar para trás e contemplar a destruição de Sodoma e Gomorra). Acreditamos que a segurança está no passado porque todo futuro é, por definição, incerto. No entanto, existem pontos comuns que conviria ter sempre presente. A justiça, nesse sentido, é uma emergência. Necessitamos urgentemente tornar a justiça independente dos poderes econômicos e políticos. Toda a sociedade requer esse ‘sancta sancturum’ onde sabe que encontrará igualdade, quer dizer, prêmios e sanções claros para todos por igual perante a lei. Atropelar a leis é atropelar a condição humana. Não se pode admitir uma grama mais de impunidade nem venialidade. As cortes supremas devem voltar a ser as instituições mais confiáveis de nossos países. Neste sentido, vejo com alegria o avanço da Argentina, onde nem mesmo os pais dos juizes acreditam mais nas leis. Agora, este processo está se corrigindo. Oxalá que se detenha.

ÉPOCA – E o Paraguai? Como o senhor vê a situação Paraguaia, sempre em crises (como o Brasil)? O senhor continua sendo de esquerda?
Bastos – Sempre em crises como o Brasil, Argentina, Peru, Venezuela, México… diga-me algum país livre de problemas sócio-econômicos e de governo na América Latina. O continente se transformou em uma tempestade de areias movediças. Afortunadamente, nos últimos dois anos tivemos eleições livres, candidatos foram eleitos sem suspeitas de fraudes, temos dois governos como os do Brasil e Argentina que geraram boas expectativas. Tudo parece estar retomando o rumo perdido. O MERCOSUL tem problemas, como não, sobre todas as tremendas assimetrias entre Brasil e Paraguai. Pense que São Paulo tem três vezes a população de todo o Paraguai… uma cidade triplica a população de nosso país inteiro.
Eu continuo crendo que o famoso Neoliberalismo é mais problema que solução. Os exemplos de países que me apresentam como ‘sobressalentes’ têm gerado riquezas, mas a custa de enormes abismo entre pobres, muito pobres e muito ricos. O caso dos tigres asiáticos é paradigmático. Nos mostram as vitrines dos seus shoppings, mas não os ‘barco-oficinas’ em fazem as pessoas trabalharem aglomeradas em condições de fome, postergação, negação de todos os direitos que os trabalhadores sofreram para conseguir. Recentemente escutei a presidente do Panamá, Mireya Moscoso, reconhecendo que em seu país a globalização produziu mais vítimas do que benefícios. Isto é o discurso da própria estadista, e não de opositores. E não creio que a senhora Moscoso possa ser suspeita de Maoísta. Simplesmente está reconhecendo a dolorosa realidade. Não falemos do exemplo argentino, porque parece ficção-científica. Quo vadis neoliberais? Não creio que a solução do contexto global passe pela proteção econômica que usam os países líderes, enquanto impõem livres barreiras aos que chamam ‘eufemisticamente’ de emergentes. Mas não podemos vender-lhes nem um quilo de soja. Como vamos emergir?

ÉPOCA – Para que serve a arte e a literatura em um tempo de mudanças tão violentas como o nosso?
Bastos – Parece-me o meio ideal para refletir em dueto. Os meios audiovisuais que se multiplicaram como fungos têm apenas uma função informativa. Não servem para aprofundar os grandes temas, porque o imediatismo urge e o pensamento, quando penetra, não pode seguir o ritmo de um videoclipe. Necessita mais tempo. E a leitura facilita esse tempo adicional. Nos permite entrar na intimidade do outro. Pensar com ele, como ele, contra ele, ou alternativamente. Ao mesmo tempo, a literatura tem sido sempre o canal natural para a transmissão de idéias desde que se inventou a tipografia no século XV. È uma das poucas coisas que permanecem fiéis a si mesma através dos mudanças. A boa literatura. Depois, está a literatura comercial, mas já é outra coisa.

ÉPOCA – Que autor ou autores são os mais importantes para o seu trabalho? Existe uma lista de livros mais importantes que o senhor possa sugerir aos jovens?
Bastos – Aos jovens brasileiros eu sugiro que busquem os seus grandes mestres. ‘Os Lusíadas’ de Camões me parece fascinante. É uma epopéia marítima pintada como um acontecimento mítico. A história de Portugal está palpitando nela. É importante explicarmos de onde viemos, e o passado do Brasil é Portugal. Estive fazendo um trabalho sobre este tema, e posso assegurar que não há desperdício nesse maravilhoso livro. Existem autores maravilhosos na língua portuguesa: toda a obra de Guimarães Rosa, ‘Sertão Veredas’ é uma obra magnífica; parte da obra de Euclides da Cunha. ‘Inventário de Sombras’, de José Castello. Aí estão os autores contemporâneos do Brasil, e se pode vislumbrar que têm uma literatura maravilhosa. Esse livro seria um bom guia.
Estou trabalhando em uma Biblioteca de Augusto Roa Bastos, me pediram que selecionasse 20 títulos para uma primeira entrega. 20 obras da literatura de todos os tempos que levaram um pequeno prefácio meu. A idéia me entusiasmou e creio que ali haja um bom começo de leitura. Lhe cito os títulos que escolhi até o momento: ‘A Planície em Chamas’, um magnífico livro de contos de Juan Rulfo; ‘O Asno de Ouro’, de Apuleyo; ‘Os Sertões’, de Guimarães Rosa; ‘contos e ensaios’ de J.L. Borges; ‘Do assassinato como uma das belas artes, de Thomas De Quincey; ‘Três Contos’, de Flaubert; ‘Orestia’, de Ésquilo; seleção de poesias de ‘Canto Geral’, de Neruda.
À parte, certamente, indico ‘Dom Quixote’ e Shakespeare. Poderia lhe dizer que cresci com Shakespeare. Toda a minha infância e adolescência passei lendo um livro de uma coleção de obras de Shakespeare de minha mãe. Os livros são caros no Paraguai. Agora, com a editora Vidalia Sánchez, fundamos a ‘Festilibro’, uma biblioteca infanto-juvenil que está um pouco sob minha direção. As obras são econômicas, mas muito bem editadas para facilitar este entusiasmo inicial por leitura. Isso é fundamental. Neste começo, um pequeno conto chamado ‘Polisapo’ causou muito entusiasmo entre os meninos de diferentes lugares, tão distantes como Encarnação e Concepção. Parece que encontramos um modo de recrutar novos leitores.

ÉPOCA – Como o senhor entende a diferença entre a supremacia européia e a cultura ameríndia, como a guarani?
Bastos – Creio que essa oposição existiu, sobretudo na época do Descobrimento ou encobrimento, como chamo a empreitada de Colombo. Em ‘Vigilia del Amirante’, aprofunda-se muito nessa pergunta. Os convido a ler a novela e creio honestamente que ali está a respostas a esta pergunta. Como dizia um amigo, ‘os editores também tem que viver’

Bastos Fallece

Revista Época: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT571676-1655,00.html

Anúncios

Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
Esse post foi publicado em Cultura, Prensa / Imprensa e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s