“As crianças de língua materna guarani devem ser alfabetizadas em guarani”

Entrevista: A reforma educativa atual é um fracasso, a qual devemos jogar inteira no lixo e aplicar uma nova política educativa pública para começar de maneira séria. Nisso se resume o que estabelece o destacado e de vasta trajetória no mundo da linguística e literatura guarani, o catedrático universitário, Lino Trinidad Sanabria. Nesta entrevista, nos reflete uma parte da realidade da educação paraguaia, que deve ser transformada. Sanabria toma como base um dos pilares fundamentais que já há mais meio século a UNESCO deu como recomendação técnica: que em todos os povos que exista uma língua materna diferente da língua oficial, as crianças devem ser alfabetizadas em sua língua materna.

Fonte: La Nación (PY), 06 de maio de 2013. Tradução livre.
Link: http://www.lanacion.com.py/articulo/124153-los-ninos-con-lengua-materna-guarani-deben-ser-alfabetizados-en-guarani.html

Lino Trinidad Sanabria
Lino Trinidad Sanabria, reconhecido catedrático da Universidad Nacional de Asunción.

“A maioria das crianças paraguaias tem como língua materna o guarani, enquanto alguns poucos, o espanhol. Esta é uma realidade que não se pode desconhecer e é o antecedente imediato das disposições do artigo 77 da Constituição Nacional e da recomendação técnica emitida pela UNESCO já há mais de meio século”, começou dizendo o professor Lino Trinidad.

Por que o senhor diz que a política educativa pública a nível nacional não consulta nossa realidade sociolinguística?
“Três pontos, e nada mais, vou mencionar a você: primeiro, porque a alfabetização inicial não se faz na língua materna do educando; segundo, não se leva em conta que temos crianças com língua materna guarani e crianças com língua materna castelhana; e terceiro, o castelhano, apesar de ser uma língua minoritária no país, é ensinado de forma privilegiada em detrimento do ensino do guarani, e este, sem embargo, é uma língua majoritária no país”.

O quê se deve reformar?
“Deve-se reformar o método de ensino do ponto de vista linguístico, porque é nesse aspecto que estamos em falência. Há de se lembrar que a última reforma educativa teve um intrépido fracasso admitido pelo mesmo ministro de Educação, na época de Luis Alberto Riart. Esse fracasso, a meu ver, está vinculado estritamente com a questão sociolinguística”.

O que o senhor acha que aconteceu, por que esse fracasso?
“Porque se pretendeu alfabetizar inicialmente o grosso da população paraguaia, que é falante de guarani, em castelhano, e seguimos até hoje com esse sistema. Porque o castelhano tem um regime de ensino privilegiado, em detrimento do idioma guarani”.

Onde se estabelece o erro?
“Em primeiro lugar, cometemos o erro crasso de pretender alfabetizar inicialmente as nossas crianças em uma língua que não a sua língua materna. Isso é fundamental. Não se pode alfabetizar nenhuma criança do mundo em uma língua que não seja a sua língua materna. Isso é assim, porque a língua materna tem que ser utilizada como língua base para adquirir todos os outros conhecimentos e adquirir uma segunda ou terceira língua. Sem conduzir com fluência e com propriedade a língua materna, não se pode pretender que uma criança aprenda uma segunda língua, de nenhuma maneira”.

Por que o castelhano é privilegiado no ensino?
“Dos muitos exemplos que existem, mencionarei apenas um. No Ensino Médio (1º, 2º e 3º ano), o castelhano tem uma carga horária de 12 horas semanais e o guarani somente 6 horas, ao que temos que acrescentar que o castelhano é utilizado também como língua de ensino ou instrução”.

Em nosso país, como se daria o ensino?
“As crianças com língua materna guarani devem ser alfabetizadas inicialmente em guarani, enquanto as crianças com língua materna castelhana, que estão em muito menos quantidade, devem ser alfabetizadas em castelhano. Em ambos os casos, deve-se ensiná-las gradualmente a outra língua oficial como segundo idioma. Isso é o que diz a recomendação da Unesco e o que dispõe o artigo 77 da Constituição Nacional”.

O que diz a recomendação técnica da UNESCO?
“Efetivamente, a UNESCO, em 1951, já havia lançado uma recomendação técnica a todos os povos onde existe uma língua materna diferente da língua oficial, que se alfabetizem as crianças em sua língua materna e que a língua oficial, se não é sua língua materna, que seja também ensinada paulatina ou gradualmente, porque não se pode prescindir”.

E como se encararia a alfabetização inicial por setor?
“A alfabetização inicial deve ser feita em qualquer setor do país na língua materna do educando, porque estas línguas maternas podem ser diferentes em qualquer setor da população paraguaia. Não depende de que estejam em cidades ou em zonas rurais. O que ocorre é que nas zonas rurais, a grande maioria das crianças serão falantes de guarani antes de falantes de castelhano”.

O senhor fala também da regionalização da alfabetização?
“A regionalização faz falta para contemplar a diversidade de vivência das crianças da cidade e aquelas rurais. Não se pode alfabetizar inicialmente todas as crianças paraguaias com os mesmos métodos, os mesmos programas e os mesmos materiais didáticos”.

Além da política educativa nova, com quê elementos se deve ensinar?
“Pois bem, deve haver programas de estudo, materiais diferentes, materiais didáticos diferentes, e uma política diferente, inclusive para iniciar a alfabetização com as crianças da zona rural em guarani, e com as crianças que são das cidades do país, em castelhano”.

Por que duas políticas educativas diferentes?
“Porque as crianças das cidades e das zonas rurais têm vivências diferentes, têm formações diferentes, têm culturas diferentes, mas que vão se encaixar com muita facilidade. As crianças da cidade poderão imediatamente ficar na situação das crianças da zona rural, e vice-versa”.

Não serão criados dois tipos de cidadãos paraguaios?
“Não, neste momento, colocar todos no mesmo saco é uma aberração. Igualmente, colocam-se todas as crianças em um mesmo saco, sem se importar com sua língua materna. Há crianças que têm como língua materna o castelhano, mas a grande maioria tem como língua materna o guarani. Contudo, pretendemos alfabetizar todos em castelhano”.

Que problemas temos atualmente?
“Temos problemas que tem deixado nossa política educativa retrógrada, completamente dissociada de nossa realidade sociolinguística, e esses problemas consistem, por exemplo, em não conduzirmos nossa linguagem da forma devida, nem oral, nem escrita. Todos os alfabetizados nesse sistema errôneo não têm competência linguística nem em castelhano, nem em guarani. É por isso que a grande maioria dos jovens são analfabetos funcionais em castelhano. Por isso dizemos que se os paraguaios são alfabetizados em castelhano, todos teriam que ter competência linguística pelo menos no castelhano, e isso é o que não ocorre”.

E por que o uso do jopará?
“Porque o falante paraguaio não tem uma riqueza de vocabulário nem em castelhano, nem em guarani, salvo exceções. Estou falando da maioria da população paraguaia. O jopará é produto dessa falta de vocabulário em ambas as línguas e não é o conveniente, porque vai destruir ambas as línguas oficiais em uso”.

Tudo isso seria produto do que?
“De nossa política educacional retrógrada”.

Está de acordo em aplicar uma segunda ou terceira língua de outro país?
“Estou de acordo que se ensine línguas estrangeiras. Tomara as crianças aprendam o inglês ou o francês, ou o mandarim também, mas primeiro devem aprender bem sua língua materna. Em nenhuma parte do mundo se obriga uma criança a aprender uma segunda língua antes de aprender corretamente e com fluência conduzir sua língua materna”.

Temos que elaborar nossa própria política educativa pública ou copiar de outros países?
“Não compartilho do critério de referentes da Educação e referentes políticos que temos que utilizar o sistema educacional de Cuba ou da Venezuela. Independentemente de não estar de acordo, sem entrar na análise de qual é sua política de governo, não compartilho da ideia que temos que transplantar de Cuba ou Venezuela, por exemplo, o sistema político educativo, nem do Uruguai, tampouco. O Paraguai é um país único e não repetível, dada a sua realidade sociolinguística. Somos nós que temos que elaborar nossa própria política educacional pública. No MEC não querem nos escutar sobre o que traçamos, mas em algum momento alguém terá que escutar, embora até o momento ninguém tenha desejado. Oñembotavypaite lo mitá”.

No MEC haveria técnicos em linguística?
“Muitos dos cargos de alta especialização técnica, não somente o MEC, estão ocupados por pessoas em virtude de sua condição política partidária (leia-se operadores políticos). Falta vontade política para que o governo atue, enquanto política educacional, de acordo com nossa realidade sociolinguística, e há que entender porque dizemos que o Paraguai é único e não repetível na América Latina, e há que assumir essa situação porque é nossa realidade”.

Perfil
Nome: Lino Trinidad Sanabria
Idade: 78 anos
Cargos:
– Membro da Academia de Língua Guarani, criada pela Lei de Línguas.
– Professor na área idiomática das carreiras de Ciências da Comunicação e Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional de Assunção (UNA).
– Professor na carreira de Ciências Políticas da Faculdade de Direito e Ciências Sociais da UNA.

Estudos Universitários:
– Obteve os títulos de Licenciatura em Línguas Guarani, Pós-Graduado em Linguística e Filologia em Guarani; e Mestrado em Língua e Cultura Guarani, todos na Faculdade de Filosofia UNA.
– Estudou na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires.
– Licenciado em Relações Públicas da Universidade Comunera, com título de Pós-Graduado.
– Foi um dos redatores do Projeto da Lei de Línguas 4251/10
– Tradutor da Constituição Nacional do castelhano ao guarani.
– Ditou conferência em vários países da Europa, na Bolívia e no Brasil sobre o bilinguismo paraguaio, o idioma guarani e a Lei de Línguas.
– Em 2011, participou da Jornada Internacional sobre Língua Materna, organizado pela UNESCO, em Paris, França.

Entrevista conduzida por Hernán Burguez.

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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