Literatura e utopia na obra de Roa Bastos

Artes e ideias por joachin azevedo em 10 de jan de 2013 às 01:07

Roa Bastos, Augusto

Augusto Roa Bastos foi um escritor paraguaio, natural de Asunción. Tendo participado da chamada Guerra del Chaco, entre 1932 até 1935, com apenas 15 anos de idade, produziu uma escrita marcada pelo signo do exílio em plena era do autoritarismo, na América Latina. Perseguido pelo governo paraguaio, buscou refúgio na Argentina em 1947. Porém, devido a outra ditadura, é obrigado a peregrinar para a França, país onde passa a sobreviver dando aulas de literatura hispano-americana.

Embora sua cidadania paraguaia tenha sido caçada pelo governo, obteve o título de cidadão honorário concedido pela Espanha. Apesar de sua produção ficcional ser pouco conhecida entre os brasileiros, a obra de Roa Bastos encontra-se traduzida em mais de 25 idiomas e o autor foi contemplado em vários concursos literários, chegando a ganhar o Prêmio Miguel de Cervantes em 1989.

Em se tratando de um episódio dramático e violento como a Guerra do Paraguai, no século XIX e a Guerra do Chaco, na década de 30 do século passado, cujo saldo foi de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos, podemos perceber que a linguagem literária de Roa Bastos codifica e fornece aos leitores um testemunho da dor e do trauma. Em suma, a arte de Roa Bastos consiste em comunicar tudo aquilo que testa e desafia os limites da razão. È nesse instante que um questionamento antigo, porém repleto de insídias políticas e morais atuais parece se impor aos filósofos, historiadores e estudiosos das artes: a memória das catástrofes que ocorreram, de acordo com os anseios dos herdeiros do colonialismo e do imperialismo, parece funcionar como um remédio para cicatrizar algumas feridas que ainda estão abertas na história da América Latina.

A Guerra do Chaco (1932-1935) é o mote necessário para que haja uma verdadeira explosão imagética e discursiva comunicada por meio do romance Hijo de hombre (1972), de Roa Bastos, pela película argentina Chóferes Del Chaco, que contou com a colaboração do citado escritor e o recente filme Hamaca Paraguaia (2006). Porém, enquanto a linguagem cinematográfica, sobre os conflitos do Paraguai, parece estar comprometida em evidenciar a face trágica escondida por trás de toda associação demasiadamente romântica entre o bélico e o belo, a literatura de Roa Bastos – apesar de configurada sob o jugo do exílio e da diáspora – é portadora de poderosas imagens utópicas.

89 - Augusto Roa Bastos - Hijo de hombre-miniatura-320x476-32617

O centro dos romances como Hijo de hombre (1972), Yo el supremo (1976) e das falas de Roa Bastos sobre a necessidade de romper com a perspectiva elitista, que transforma o artesanato literário em uma espécie de culto ao dicionário, percebida em suas críticas ao escritor e diplomata Carlos Fuentes possuem implicações éticas profundas. Aqui, essa escrita engajada da ficção é capaz de operacionalizar um verdadeiro ato de sepultamento, revestindo os mortos de uma dignidade e importância que lhes foram retiradas em vida, violentamente, pelas convenções políticas e bélicas por meio das quais se preserva o poder e a memória oficial das elites.

Libro Yo el Supremo

Se a reflexão sobre as identidades guaranis e as misturas híbridas entre a cultura do colonizador e a dos herdeiros do colonialismo dilui as fronteiras entre literatura e filosofia ao longo da produção intelectual de Roa Bastos, os posicionamentos políticos e morais dos seus personagens e do narrador colocam em cena o tema da utopia enquanto uma experiência estética pautada na resistência. Por meio da imaginação, qualquer pessoa pode perambular em um mundo diferente do nosso. Por exemplo, um mundo no qual as pessoas estariam mais preocupadas com a saúde mental dos indivíduos, do que com a sua saúde física.

Esse jogo é ficcional, mas também entrelaça firmemente os vínculos entre estética e política. Ao tomar um distanciamento crítico das convenções sociais e dos preconceitos morais dominantes, a utopia configura um mundo dialético: ao mesmo tempo fantástico, porém cruelmente verossímil. O escritor-filósofo que elabora uma utopia coloca diante dos olhos dos seus leitores diferentes formas de pensar, de viver em comunidade, crítica os preconceitos e o autoritarismo da história oficial. Os leitores precisam aprender algo com essa ironia. Se existem esqueletos duros que estão envoltos por feixes de músculos, carne e pele, então, como nos ensina Roa Bastos, em El fiscal, a verdade só é verdade quando permance oculta. Enquanto narrador, esse autor paraguaio, que viveu grande parte de sua trajetória desterrado, não construiu uma ficção sobre a monstruosidade gélida da guerra. Roa Bastos esboçou que a memória militar oficial – ao anexar como glória estatal o que foi um imenso fracasso da condição humana – torna-se mais monstruosa do que a barbárie vivida nos fronts.

el-fiscal-augusto-roa-bastos-miniatura-320x434-32621

Os escritos de Roa Bastos amalgamam, em suas formas e conteúdos, a hibridez vívida e plural do matiz guarani. Mas também possuem uma mensagem melancólica, na medida em que podem ser lidos como imagens ficcionais de uma tragédia real que ceifou a vida de milhares de indíviduos. Vidas tragadas pela máquina bélica que funcionava de acordo com a régua e o compasso dos autoritarismos nacionalistas e imperialistas que caracterizaram, igualmente, os governos do Paraguai e da Tríplice Aliança. Se a história oficial é legitimada pelos discursos que estabelecem a lei e a ordem, Roa Bastos compôs uma literatura na qual o silêncio é usado para não reproduzir esses valores dominantes. É preciso pois que historiadores, críticos literários e leitores busquem decifrar os espaços em branco de um texto. Eles podem ter tanta importância quanto aquilo que foi tornado explícito por meio do enredo de um romance. Uma lição estética, mas também politicamente valiosa nesses tempos nos quais o inimigo – o pensamento fascista e intolerante – não cessa de ganhar terreno.

Fonte: http://lounge.obviousmag.org/ruinas/2013/01/roa-bastos.html

A produção ficcional de Roa Bastos é pouco conhecida entre os brasileiros.
A obra de Roa Bastos encontra-se traduzida em mais de 25 idiomas e o autor foi contemplado em vários concursos literários, chegando a ganhar o Prêmio Miguel de Cervantes em 1989.

augusto-roa-bastos-recibiendo-el-premio-cervantes

Anúncios

Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
Esse post foi publicado em Cultura, Prensa / Imprensa e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s