Programa Fantástico dá espaço ao Paraguai verdadeiro

Orquestra com instrumentos construídos no lixão recupera sonhos de crianças paraguaias diz Fantástico.
Edição do dia 07/07/2013

Reciclados

Conheça a Orquestra de Reciclados de Cateura e a batuta mágica de um maestro fazedor de sonhos.
07/07/2013 21h04 – Atualizado em 07/07/2013 21h04

Um lugar de lixo, pestilência e mau cheiro. Quem mora no centro de Assunção jamais iria ao bairro de Cateura. O que pode ser mais inusitado do que “Garota de Ipanema” sair justamente daqui?
“É um som que me acalma. Se vou pra cama, durmo que só!”, conta a vendedora ambulante Victoria Ortiz.
“Eu e minha família choramos de emoção. Os vizinhos correm à rua para ouvir”, diz a catadora de lixo Mirian Cardozo.
“New York, New York” emana dos detritos de Cateura. E pelos caminhos do lixo, jovens aparecem empunhando estranhos instrumentos musicais.
“As pessoas não sabem o que levo nas costas”, diz Brandon Aranda, de 16 anos.
Brandon toca Beethoven no que parece ser um contrabaixo.
Fantástico: Você já conhecia música clássica?
Brandon: Não.
Fantástico: Beethoven, Mozart?
Brandon: Não, não conhecia.
A nota grave sai de dentro de um tonel de óleo. “As pessoas pensam que barril velho não serve para nada. Mas para nós, serve.”
O responsável por tirar música de sucata é Fávio Chavez. Ele é técnico ambiental de uma fundação e foi trabalhar em Cateura, onde fica o lixão da capital do Paraguai. Cinco mil famílias sobrevivem catando lixo num imenso aterro.
“A metade das 25 mil pessoas que vivem em Cateura são crianças”, diz Fávio. “Crianças de 11 ou 12 anos que aprendem a ser pais e mães de seus irmãos menores”.
Como também é músico amador, Fávio resolveu ensinar o que sabe a quem quisesse aprender. Mas com que instrumentos, se um bom violino custa US$ 300?
“Todo violino tem uma parte da frente e uma parte de trás. No meu violino, a parte da frente é uma lata de tinta. E a parte de trás é uma assadeira de pão”, mostra Ada, de 14 anos. “O rastilho de prender as cordas é um garfo”.
Ada, uma das melhores alunas de Fávio, toca Vivaldi com as amigas em violinos de lata.

“Quando Fávio me mostrou esse violino, achei genial! Era muito colorido”.
A Noelia é irmã da Ada. Ela tem 13 anos e, de tanto ouvir a irmã mais velha tocar, quis aprender um instrumento também. Ela escolheu o violoncelo. No dela, a caixa de ressonância é feita de uma lata de azeite. Todo o sistema de sustentação das cordas foi encontrado no lixo: uma escova de cabelo, duas colheres de pau e um martelo de bater bife. Daqui pode sair o mais puro Mozart.
“Como faltavam instrumentos, houve necessidade de improvisar e fabricar instrumentos alternativos com o material que tínhamos a mão”, explica o maestro.

Fávio montou uma pequena oficina nos fundos da casa dele. Nicolás Gomez, catador de lixo em Cateura, e carpinteiro de mão cheia, se ofereceu pra ajudar. “Quem imaginaria que sai música do lixo? É fenomenal!”
É ele próprio quem escolhe, no lixão, o material que vai usar. “Olho para o entulho e já vejo um violoncelo numa lata de tinta”.
Um violino fica pronto em um dia. Um sax soprano é mais complicado. Leva dois dias para ajustar botões, moedas e tampas de garrafa nas chaves das notas de sopro. Fávio mostra o seu próprio instrumento. É um violão como outro qualquer. Só que a caixa de ressonância são duas latas de doce. Uma de baunilha e outra de chocolate.

Mas dá pra dizer que é um som perfeito? “O som está marcado pelo material que o produz. Se ele é feito de lata, produz um som ‘latoso’. Mas tem a mesma afinação de um violão”.
E som ‘latoso’ dá música clássica? “Claro! Um Beethoven ‘latoso’”, responde Fávio.
O coral da Nona Sinfonia em som de lata. “O que nós fazemos é transformar a curiosidade de toda criança num interesse pela música. Mostramos que a música não é algo que esteja longe deles”.
O interesse foi tamanho, que Fávio teve de montar uma orquestra. Assim nasceu a Orquestra de Reciclados de Cateura.
Maria Cardozo, 16 anos, é uma das 30 componentes. “A música é minha vida”, ela diz. “Se você tira música do lixo, você sabe que tudo é possível. Podemos realizar nossos sonhos, seguir adiante”.
E o sonho impossível da comunidade inteira aos poucos foi se transformando em convites reais para viajar. “Até para Buenos Aires a minha filha já foi”.

“Ninguém acreditou quando eles foram se apresentar em Amsterdã”.
Foram dezenas de concertos mundo afora. Inclusive no Rio de Janeiro, como nesta apresentação em que Fávio fez um arranjo da primavera de Vivaldi.

Se Fávio considera essa uma apresentação perfeita? “Depende do que você chama de perfeição”, diz. “Uma orquestra pode ser perfeita como expressão musical. Mas, para nós, importa que seja perfeita socialmente falando. Com a música a criança aprende outras expressões de sensibilidade. Porque, estando numa orquestra, aprendem a ser solidários, responsáveis, respeitosos”.

O que não significa que Fávio não tenha descoberto talentos de exceção. Como Natália Aranda. “Quando toco um instrumento, é algo muito meu. Sinto que faz parte da minha vida”, diz a menina. “Eu quero ser uma grande violinista, e nossa orquestra prova que nada é impossível”.
Para Fávio a determinação de Natália não é exceção. E mostra uma mudança geral de comportamento. “Imagine uma criança que não conseguia se concentrar cinco minutos, e agora integra uma orquestra e tem a vida planejada com um ano de antecedência.”

Se for preciso, o maestro põe dinheiro do próprio bolso para comprar o material de sua oficina. O que ele ganha fazendo o que faz? “O privilégio de mudar vidas. Às vezes, me sinto empunhando uma varinha mágica que realiza sonhos.”
Senhoras e senhores, com vocês a Orquestra de Reciclados de Cateura, e a batuta mágica de um maestro fazedor de sonhos.

Fonte: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2013/07/orquestra-com-instrumentos-construidos-no-lixao-recupera-sonhos-de-criancas-paraguaias.html

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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