Guarânia, a música de um povo que ama e sonha

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A primeira guarânia Jejui, Flores compôs Arribeño resay y Ka’aty. | Foto: Archivo


VÍDEO: Em 1925, executou-se pela primeira vez Jejuí, marcando o nascimento de um gênero musical que, segundo Roa Bastos, é “a expressão mais pura da alma popular”. No dia 27 de agosto, recorda-se o Dia da Guarânia, data de aniversário de seu criador, José Asunción Flores.

Tudo começou em uma noite de janeiro de 1925, no terraço do antigo Hotel Cosmos, em Assunção. Atuava o trio de músicos integrado por Brand, Kamprad e Piensunka, que apresentou pela primeira vez em público uma peça musical intitulada Jejuí.

Entre os convidados especiais estava o então presidente Eligio Ayala, que se manifestou, admirado: “Nunca antes havia escutado esta música, é algo novo, embora me pareça conhecida. Que é o autor?”.

Como ninguém lhe respondia, o mandatário se levantou e voltou a formular a pergunta, em voz mais alta. Então, do palco, o músico Brand respondeu: “O autor é José Asunción Flores, um garoto muito talentoso da Banda da Polícia”.

Esta é, ao menos, a versão sobre a execução oficial da guarânia, como novo gênero musical, que narrou o próprio Flores à escritora Sara Talía, transcrita em seu livro “José Asunción Flores: gênese e verdade sobre a guarânia e seu criador”.

Mas não é esta a data estabelecida para recordar o Dia Nacional da Guarânia, mas o dia 27 de agosto, em recordação ao dia em que nasceu seu criador, Flores, em 1904, no humilde e histórico bairro de Punta Karapá, na Chacarita, denominado atualmente como bairro de Ricardo Brugada, de Asunción.

NOVO RITMO. Filho de um músico popular, o violonista Juan Volta, a quem quase não conheceu, e de uma humilde lavadeira, María Magdalena Flores, José Asunción cresceu em um ambiente marginal, mas sonoramente musical e com intenso fragor de lutas políticas e sociais, que marcaram sua formação artística e humana.

Formado principalmente na lendária Banda da Polícia, Flores se tornou um obsessivo investigador das raízes da música paraguaia, e dizia que era necessário um ritmo mais próprio.

“Em nosso país, não tínhamos uma genuína música folclórica nem autóctone, fora do auge de uma música popular de raízes exóticas. José Asunción Flores se empenhou em buscar nossa genuína música folclórica, porque sentia que o acometiam umas adivinhações secretas. Genial, intuitivo, expressão arquetípica do meio e da raça, artista verdadeiro, suas poderosas antenas psíquicas o orientaram até o mais profundo do ser humano e da natureza”, explicou o escritor Augusto Roa Bastos, em uma célebre conferência ditada em 1944, no Ateneu do Centro de Estudantes de Medicina de Asunción, sobre “O surgimento e evolução da guarânia”.

Flores havia chegado à sua criação utilizando ritmos e melodias mais lentas e melancólicas, em compasso de 6/8. O primeiro experimento foi interpretar a polca “Ma’erãpa reikua’ase”, de Rogelio Recalde, ralentando-a.

Quando teve que colocar um nome à sua composição, vieram à sua memória s versos do poeta Guillermo Molinas Rolón, em seu poema “La fiesta de la raza”, sobre o país dos indígenas guaranis, em que se diz: “E foi também Guarânia a região prometida / como terra de fantasias / de ilusões e de vida”.

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José Asunción Flores | Foto: Archivo ÚH

EVOLUÇÃO. Após a primeira guarânia, Jejuí, Flores compôs “Arribeño resay” e “Ka’aty”, com letra do poeta Rigoberto Fontao Meza, até que uniu seu gênio criador ao grande poeta Manuel Ortíz Guerrero, com quem compôs algumas das peças musicais mais lendárias do novo gênero: “Índia”, “Nde rendape aju”, “Panambi Vera”, “Kerasy”, “Paraguaype”.

“Seu nascimento está vinculado, como se sabe, ao nome de um dos maiores poetas que nossa pátria já teve: Manuel Ortíz Guerrero. Flores encontrou nele, desde o começo, a compreensão e o apoio fervoroso que provinham de uma estreita afinidade espiritual. Este foi um encontro providencial. Entre duras vicissitudes, empreenderam seu trabalho artístico esses dois geniais temperamentos. Não tardaram em aparecer os detratores e os que, com a placidez da aurea mediocritas, obstinados caluniadores e traficantes da arte, creram ser tarefa fácil esmagar os dois jovens revolucionários, que irrompiam vestidos de magnífica galhardia, negando-lhes rotundamente todo mérito inovador”, recorda Augusto Roa Bastos, na citada conferência sobre Flores e a guarânia.

Após a morte de Ortiz Guerrero, Flores segue a tarefa que seu amigo o deixara: “Deve viajar a Buenos Aires, passear com sua guarânia pelas ruas, salões…”. Em 1933, toma um navio e desembarca na capital argentina, que se converte no principal cenário de seu gênio musical, onde cria a Orquestra Ortíz Guerrero e segue compondo e gravando temas memoráveis, como “Gallito Cantor”, “Pasionaria”, “Ñane aramboha”, “Nde raty pykua”, “Mburicao” e “Nde rendape aju”, com letra de diversos poetas.

Ao mesmo tempo, impulsionado por seus ideais de justiça social, Flores se afilia ao Partido Comunista Paraguaio, o qual o converte em um exilado e o leva a morrer no desterro, em 17 de maio de 1972. Seus restos seriam repatriados a seu país pouco depois da derrocada da ditadura stronista, em 1991.

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José Asunción Flores junto a Mao Tse Tung. Pekín, 1959. | Foto: Gentileza

“O tempo já se encarregou de apagar o mal sobre a areia amarela da inveja. Hoje, de canto a canto da pátria, vibra a guarânia como expressão mais pura da alma popular”, diz Roa Bastos.

O autor de “Yo, el Supremo” enfatiza que “se a guarânia, como expressão de uma arte avançada, mesmo que sem se separar jamais da terra, do meio físico e humano que lhe dá sustentáculo, promove certo gênero de desenvolvimento estético, não é menos certo que também desperte e avive as fontes da bondade, da perfeição moral. Posso afirmar aqui, sem temor de ser desmentido, que ninguém, depois de ter escutado uma guarânia ou um kyre’y, leva a alma empeçonhada por um sentimento impuro ou por um ferimento desaprazível de maldade. Não poderia ser isso. Esta música nos traz a nobre voz da natureza. Ela nos reflete a angústia do homem, sua ansiedade metafísica, seu incoercível anseio de se elevar e se transfundir pelo salmo místico com as fontes da bondade absoluta”.

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Fonte: Andrés Colmán Gutiérrez, Última Hora (PY), 26 de agosto de 2013.
Link: http://www.ultimahora.com/guarania-la-musica-un-pueblo-que-ama-y-suena-n716691.html#fotogaleria-id-236627

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