Sem misericórdia

No último ano do conflito, as tropas aliadas escreveram episódios de barbárie contra um país destroçado

Herib Caballero Campos/Tradução: Nashla Dahás. 1/10/2013 – Revista de História da Biblioteca Nacional

Revista
Ruínas da igreja de Humaitá depois da captura da fortaleza pelo exército brasileiro. A guerra deixou grandes rastros de devastação e morte no território paraguaio.

“Aquela cidade solitária e silenciosa, por cujas ruas cruzavam ratos famintos, foi ocupada e saqueada pelos brasileiros de uma maneira bárbara. Os navios de transporte e alguns de guerra saíam do porto carregados de móveis de sala e dormitório: levavam pianos e camas juntos!”. As palavras de Juan Crisóstomo Centurión, oficial do exército paraguaio formado na Europa, descrevem a ocupação de Assunção pelas tropas da Tríplice Aliança, em janeiro de 1869. A Guerra do Paraguai entrava em seu último ano, mas muitos horrores ainda estavam por vir.

Poucos soldados paraguaios sobreviveram às batalhas de dezembro sem se tornarem prisioneiros. O marechal Francisco Solano López estava acompanhado apenas por sua escolta quando se dirigiu ao acampamento de Cerro León, onde, através de uma nova conclamação, conseguiu formar um exército de 10 mil homens armados com fuzis. Eram anciãos, soldados que haviam sido feridos e meninos entre 12 e 14 anos.

A população abandonava suas casas tanto por temer os aliados como pelas investidas para recrutamento do exército paraguaio, que iam juntando os recursos humanos e materiais para organizar de novo a defesa no Departamento de Las Cordilleras. Após vários meses de inatividade devido aos danos que as tropas paraguaias causaram à via férrea, os aliados avançaram para Las Cordilleras em fins de maio de 1869. Seu novo comandante, o conde d’Eu – genro do imperador D. Pedro II – ordenou o ataque a Piribebuy em 12 de agosto. A cidade contava com 4.500 homens para resistir. Depois de uma persistente defesa comandada pelo major Pedro Pablo Caballero, as tropas aliadas se impuseram graças ao número de homens e melhor armamento. Mas perderam o general João Manoel Mena Barreto. Como vingança, o conde d’Eu ordenou a degola de Caballero e de outros oficiais, assim como a queima do hospital da cidade, com os feridos dentro.

Depois da derrota de Piribebuy, Solano López e seu exército empreenderam a marcha para San Pedro, deixando a retaguarda a cargo do general Bernardino Caballero (sem parentesco aparente com Pedro Pablo), com cerca de 3 mil homens e uns poucos canhões. A esta altura, as tropas de Caballero eram compostas, em sua maioria, por crianças. A vanguarda brasileira avançou sobre o Rubio Ñu, ou Acosta Ñu, em 16 de agosto. O combate durou todo o dia e, depois da vitória aliada, o conde d’Eu novamente ordenou um ato que não estava de acordo com as condutas que até então regiam a guerra: a queima do campo de batalha, onde ainda havia feridos. Todos morreram queimados.

A perseguição e as degolas não pararam ali, estendendo-se por mais três dias. Todos os prisioneiros capturados eram executados sumariamente. Entre eles, o comandante Julián Escobar e o major Cárdena, junto com outros 16 oficiais que foram degolados por ordem do general brasileiro Victorino. “O quadro foi pavoroso e capaz de fazer tremer de horror o soldado mais frio e indiferente. Um incidente veio aumentar a lugubridade tétrica daquele horrendo espetáculo. O filho de Cárdena, que ali se encontrava também, prostrado de joelhos, com os olhos para o céu, pediu terna e encarecidamente ao general Victorino pela vida de seu querido pai. Mas nada, o general se mostrou inflexível e a execução foi levada a cabo”, relatou o oficial Centurión.

O que restava do exército paraguaio alcançou San Estanislao. Alguns autores consideram que López pretendia forçar o desgaste dos aliados de modo a tornar possível um acordo de paz. Outros afirmam que já naquele momento ele havia perdido totalmente a noção da realidade e da dura situação em que se encontrava o Paraguai e seu exército.

Enquanto o marechal tentava empreender novas marchas para o leste, foram descobertas conspirações nas filas paraguaias, e castigadas severamente. A situação era cada vez mais de agonia, pois faltavam alimentos, e aqueles que questionavam a possibilidade de vitória eram duramente repreendidos, muitos processados por derrotismo. No relato de Centurión, “as penalidades e fadigas de todo o gênero, e a escassez de alimentos para as necessidades materiais do corpo, a fim de suportar os trabalhos de tão dura campanha, iam minando gradualmente o espírito das tropas, ao extremo de engendrar em alguns a ideia de escapar à lealdade e à adesão à pessoa do marechal e terminar de uma vez a guerra com a eliminação deste”.

No final de 1869, López e suas tropas cruzaram as cordilheiras. Em fevereiro do ano seguinte chegaram a Cerro Corá, na Cordilheira de Amambay, lugar onde ocorreria a última batalha, tão sangrenta e trágica quanto toda a guerra. As tropas brasileiras comandadas pelo general Correa da Câmara chegaram às imediações de Cerro Corá em 1º de março. Mais de 3.500 homens atacaram pouco mais de 400 paraguaios famintos e quase desarmados. Ainda que tenha havido um esforço de resistência, a superioridade das forças de ataque prontamente se impôs, as degolas e as execuções se sucederam por todo o acampamento e o próprio Francisco Solano López caiu ferido. Acompanhado de seus seguidores, ainda conseguiu chegar ao rio Aquidabán Nigüi, onde o general Correa da Câmara intimou-o à rendição, ao que López se negou exclamando: “Morro com minha pátria”.

Após cinco anos de combates, a população paraguaia diminuíra em três quartos. Muitos morreram em consequência das epidemias e de inanição. A estrutura produtiva foi saqueada e ficou praticamente inutilizada, deixando o país prostrado economicamente. As forças de ocupação permaneceram no Paraguai por mais seis anos, atuando na política nacional de forma autoritária e exercendo pressão sobre os governantes, que tratavam de empreender a tarefa de reorganizar um país devastado. É por este motivo que se pode afirmar, sem temor de equívocos, que a história do Paraguai independente tem seu ponto de inflexão naquele trágico conflito.

Em 2014 completam-se 150 anos do início da Guerra da Tríplice Aliança. A data pode ser o momento propício para que se discutam e se revisem as fontes sobre a guerra, de forma a construir um diálogo franco e desapaixonado que permita compreender com maior precisão o que aconteceu. Seria auspicioso, para iniciar esse diálogo sobre nosso passado em comum, que se concretizsse a devolução dos troféus da guerra ao Paraguai por parte do Brasil. Em especial o canhão Cristiano, que estava entre os objetos saqueados em Assunção quando as tropas aliadas ocuparam a capital. O armamento foi forjado na fundição de ferro em Ybycui – estabelecimento dinamitado pelas tropas aliadas e que teve toda a sua guarnição submetida à degola. O gesto de devolvê-lo ajudaria a encerrar definitivamente aquele conflito, cuja recordação é sinônimo de dor e desesperança na memória coletiva dos paraguaios.

Herib Caballero Campos é professor pesquisador da Universidad Nacional de Asunción, no Paraguai.

Saiba mais – Bibliografia
Cardozo Efraím. Hace 100 años. Asunción: Editorial El Lector.
Rubiani, Jorge. Verdades y mentiras sobre la Guerra de la Triple Alianza. Asunción: Edición del autor.
Whigham, Thomas. La Guerra de la Triple Alianza. Vols. I, II, III. Asunción: Editorial Taurus.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/sem-misericordia

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Uma resposta para Sem misericórdia

  1. Tácito Loureiro disse:

    Inevitavelmente, a História oficial sofrerá um revisionismo e os verdadeiros atrozes serão devidamente apontados.

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