Pedaleando Latinoamerica, uma aventura de Héctor Zavala

Autor: Héctor Zavala. Tradução Livre.
Link: http://pedaleandolatinoamerica.weebly.com/paraguay1.html

Paraguai

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Terra de ninguém, terra de contrabando, um lugar perigoso. Disso e de muitas outras coisas fui advertido a respeito do Paraguai no vizinho país Brasil, motivo pelo qual entrei com baixas expectativas… Mas, contudo, tive uma surpresa. As pessoas do Paraguai me deixaram encantado e fizeram com que este país figurasse definitivamente como um de meus favoritos.

Depois das quatro da tarde, durante o mês de novembro e junto com meu irmão Rodrigo, saímos da cidade de Foz do Iguaçu (cidade da fronteira do Brasil com o Paraguai) e entramos em Ciudad del Este. Foi nesse lugar que tivemos nosso primeiro encontro com a cultura paraguaia.

Ao entrar na cidade, e antes de ter percorrido três quadras, se aproxima um jovem. Não recordo seu nome, mas, sim, recordo que nos ofereceu algo muito bom: guiar-nos pelos principais pontos turísticos da cidade, e logo encaminharmos rumo a Asunción. Seguimo-lo, conversamos e nos deixamos guiar por alguns dos cantos dessa cidade. Era calado, mas de muito boa vontade, como todos os paraguaios em geral, e foi ele que nos permitiu apreciar pela primeira vez a hospitalidade desse povo.

Durante a primeira jornada, aproveitamos para nos locomover lentamente, com calma. Tentamos desfrutar da paisagem em meio a um trânsito relativamente intenso. Só avançamos uns trinta quilômetros do percurso, até que se aproxima de nós outro jovem de bicicleta, curioso e veloz. Ele tenta nos ajudar de qualquer forma, com o que estivesse ao seu alcance. Pedimos-lhe que nos guiasse até os bombeiros, o que aceitou com muito prazer. Ao chegar ao corpo de voluntários, fomos recebidos muito calorosamente, e compartilhando um jantar, começamos a escutar e entrar no que é a história e idiossincrasia paraguaia, tão diferente do Chile, tão diferente do que normalmente pude apreciar no caminho.
O Paraguai é um país com muita história, em muitos casos, uma história triste e muito significativa. A nós nos chamou muito a atenção o fato da grande diversidade de raças e a tinta multicultural da nação. Definitivamente não esperávamos por isso, em um país que, segundo se diz, é o segundo mais pobre da América do Sul. Esta diversidade tem suas origens na Grande Guerra, ou Guerra da Tríplice Aliança, na qual Argentina, Brasil e Uruguai uniram suas forças para lutar em desigual batalha contra o Paraguai.

Esta grande guerra teve sua origem no ano de 1864 e, ao longo de cinco anos, dizimou a população. Uma guerra na qual lutaram crianças e anciãos, morrendo lado a lado com os soldados preparados. O Paraguai ficou devastado, com uma população (segundo se diz) de um homem para cada sete mulheres. A guerra perdida, o país destroçado e grandes extensões de terreno a serem repartidas entre Brasil e Argentina foi o saldo final.

Para recuperar o país, iniciou-se um processo de colonização muito forte, provendo terrenos e as facilidades necessárias para que imigrantes, principalmente vindos de Alemanha, Itália, Polônia e, inclusive, Japão, pudessem chegar e iniciar a lenta recuperação da nação que foi devastada, no que provavelmente foi a guerra mais sangrenta na história da América Latina.
E assim, com esse feito de fundo, é que se deixou uma marca no povo, que, de alguma forma, definiu sua idiossincrasia.

Existe um costume muito típico do Paraguai e muito útil para se socializar, seja com os vizinhos, companheiros de trabalho, turistas, enfim, com quem seja. Trata-se de beber tereré. Há todo um ritual para se beber essa bebida. Em uma jarra, tem-se agua gelada e, em um copo especial, se coloca a erva, consumida através de uma bombinha. Uma pessoa bebe toda a cuia, enchendo-a novamente para que outra pessoa do grupo a beba, dando, assim, uma volta, até que todos os integrantes do grupo a tenham provado. O processo se repete, dando uma nova volta, algo muito similar ao modo como se bebe mate nos cantos ao sul do continente.
Uma das coisas de que tanto gostamos neste país foi a linda forma como pudemos nos socializar. Isso aconteceu ao longo de todo nosso percurso pelo país. Para isso, o tereré foi de grande ajuda.

Fomos tomando esta bebida por quase todos os lugares por onde passamos. Ao perguntar por uma localização, os curiosos paraguaios nos convidavam para beber; ao chegar a uma cidade, os hospitaleiros paraguaios nos convidavam a beber; ao começar uma conversa, os conversadores paraguaios a amenizavam com um bom tereré. Sempre a mão, sempre disponíveis.

Este é provavelmente o país menos visitado de toda a América do Sul. Muitos turistas se esquivam dele, talvez pensando que aqui não há nada para ver, que ao não ter cordilheira não pode competir com os países na cadeia de montanhas, ou algo dessa natureza. Contudo, creio que é uma visão errada, e me parece que este é um dos países mais genuínos de todo o continente. Provavelmente o melhor país para viver uma verdadeira experiência latino-americana.

No Paraguai, definitivamente, é muito fácil viajar, comer, encontrar um lugar para se hospedar e, sobretudo, beber o tereré. Nestes cantos do mundo sempre há uma pousada para dormir. Para isso, usávamos uma carta debaixo da manga, que era o corpo de bombeiros. Cada vez que chegávamos a uma cidade de médio tamanho e onde pretendíamos ficar para conhecer, passávamos a saudar estes voluntários e, logo, perguntar por um lugar para dormir. Sempre fomos bem recebidos e aproveitamos para compartilhar uma grande quantidade de histórias, quase sempre com um tereré em mãos. Muitas vezes não foi necessário perguntar em um corpo de bombeiros. Algum paraguaio hospitaleiro se aproximava e nos convidava para sua casa ou na de algum amigo.

Assim foi como pudemos conhecer Kaiser, ao chegar à cidade de Villarrica. Uma linda cidade, cujos habitantes se caracterizam por sua grande hospitalidade (mesmo dentro do Paraguai), simpatia e, principalmente, por fazer as coisas de uma maneira particular, de maneira única, algumas vezes ao contrário. Kaiser era um ciclista de coração e com uma hospitalidade incrível. Deixou-nos ficar em sua casa e aproveitamos para conversar e conhecer a cidade.

E assim seguimos nosso caminho rumo ao sul, sempre com o Paraguai nos dando uma ou outra lição de hospitalidade e simplicidade de vida. Finalmente em Asunción, fomos recebidos por Silva e sua família (muito simpática, decerto), onde nos sentimos como se estivéssemos em nossa casa, como sempre aconteceu ao longo deste belo país.

Aproveitamos para permanecermos um bom número de dias, para repor as forças e nos prepararmos para seguir rumo às ruínas jesuíticas guaranis, Patrimônio da Humanidade e provavelmente o lugar mais turístico do país, embora quando as tenhamos visitado não havia mais que três pessoas.

Pelo interior do Paraguai

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Logo após um excelente tempo em Asunción, seguimos rumo à fronteira com a Argentina, na cidade de Encarnación. Aproveitando a natureza própria do país é que decidimos seguir caminho através do campo. Caminhos de terra, barro, gente humilde, lugares cheios de colonos poloneses, italianos, alemães e, inclusive, japoneses, foram os sendeiros pelos quais decidimos avançar. Rotas bonitas e muitas chuvas foram a tônica dos dias seguintes.

O avanço foi lento, com dias quentes e muita chuva. Mas o prêmio foi grande: poder ver uma boa quantidade de povoados de caráter colonial, bonitos e muito floridos, e, principalmente, poder apreciar as maravilhosas ruínas jesuíticas guaranis, um lugar patrimônio da humanidade, praticamente livre de turistas.

A primeira: Jesús de Tavarangüe, uma obra gigante e impressionante, que não conseguiu ser finalizada, devido à expulsão dos jesuítas do local, e as missões, abandonadas à sua sorte.

A segunda: Trinidad, uma das mais antigas e, provavelmente, a maior. Em seu interior, conviviam jesuítas e indígenas sob um sistema social que, hoje em dia, podia ser definido, talvez, como socialismo. Os jesuítas ensinavam as artes do ocidente, como a música, pela qual o coração dos índios se inclinava, e, em troca de alguma boa ferramenta de trabalho, os indígenas entregavam suas almas ao cristianismo. Nestas reduções se ensinava, também, a leitura e a escrita, além de ser uma boa proteção para enfrentar o tráfico de escravos indígenas.

E, finalmente, após percorrer esses lugares, é que a travessia pelo Paraguai terminou. A verdade é que me encantou.

A simplicidade e o calor de sua gente, suas tradições e a mão fácil e disposta a ajudar fazem com que a decisão de visitar esse lugar tenha valido a pena totalmente. O Paraguai é um país do qual seus vizinhos mais próximos não fazem boa reputação. Contudo, atrevo-me a dizer que suas afirmações não são mais do que simples preconceitos. Não prestem atenção aos preconceitos.
E aos viajantes lhes digo que, se podem, visitem o Paraguai! Não se arrependerão.

Imagens:

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No Paraguai, uma boa quantidade de povoados é do tipo colonial. Construções antigas, muitas árvores e cores. E o que os faz ainda mais atraentes é que são praticamente livres de turistas.

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Chegue aonde chegar, no Paraguai será sempre bem recebido. Na foto, chegando ao povoado de Iturbe, muito ao meio do país e afastado das principais estradas.

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As ruínas de Jesús de Tavarangüe. Restos das comunidades jesuíticas, nas quais conviviam com os índios guaranis, ensinando-lhes a arte, a cultura e a religião. Este lugar foi declarado Patrimônio da Humanidade.

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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