Uma “guerra de bandeiras” entre Brasil e Paraguai em Humaitá

Fonte: Andrés Colmán Gutiérrez (Última Hora), 8 de fevereiro de 2014. Tradução Livre.
Link: http://www.ultimahora.com/una-guerra-banderas-brasil-y-paraguay-humaita-n765679.html

Um globo aerostático da Rede Globo alçou voo com uma bandeira brasileira sobre as Ruínas de Humaitá, para gravar um concerto de harpas do ar. O público se incomodou e tiveram que atar também uma bandeira paraguaia, muito maior.

Humaitá 1
O globo da Globo sobrevoando Humaitá, com as duas bandeiras. Foto: Fabián Fleitas.

Por Andrés Colmán Gutiérrez | De Humaitá, Ñeembucú

Ainda que a guerra entre Brasil e Paraguai tenha ocorrido há um século e meio, um feito aparentemente anedótico, como sobrevoar um cenário emblemático das batalhas com um globo aerostático, com uma provocativa bandeira brasileira, pode chegar a causar incômodo entre a população, a ponto de se exigir que também se alce uma bandeira paraguaia. Foi o que ocorreu na tarde de sexta-feira, dia 7 de fevereiro, na localidade de Humaitá, Departamento de Ñeembucú.

Tudo começou quando produtores da cadeia televisiva brasileira Rede Globo chegaram com a iniciativa de filmar um documentário sobre a história do rio Paraguai, e pediram ao maestro Luis Szarán se podia organizar um concerto de harpas paraguaias, tendo como cenário as imponentes ruínas da Igreja de San Carlos, que foi demolida a tiros de canhão pelos encouraçados brasileiros durante a Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870).

Os enviados da Globo não pouparam nos gastos, e entre seus numerosos equipamentos, trouxeram um grande globo aerostático, para sobrevoar o lugar e captar imagens aéreas.

O concerto, com 25 harpas e vários outros instrumentistas, se iniciou às 18h, com assistência das mais altas autoridades regionais, incluindo o governador de Ñeembucú, Carlos Francisco Silva, e um numeroso público.

Ali, o maestro Szarán recordou que, há um século e meio, o que soava nesse lugar eram os canhões dos navios aliados, que deixaram a antiga igreja em sua atual ruína, mas que, desta vez, soaria a música da paz, a música da integração.

Szarán também recordou que, pouco antes da Batalha de Curupayty, as tropas aliadas haviam enviado “balões”, como se chamam em português os globos aerostáticos, para espiar dos ares, com lentes telescópicas, o que faziam as tropas paraguaias. Aquela incursão aérea foi ridicularizada pelos desenhistas dos semanários satíricos Cabichuí e Centinela, que mostravam os soldados paraguaios baixando as calças para mostrar o traseiro aos espiões brasileiros.

Cabichuí
Caricatura publicada no periódico de guerra “Cabichu’i”, que ironiza os espiões brasileiros durante a Guerra da Tríplice Aliança.

Um século e meio depois, o globo da Globo

Foi necessário transcorrerem 150 anos para que outro globo aerostático, desta vez, da Rede Globo, voltasse a sobrevoar os céus de Humaitá, ainda que, agora, para apoiar a integração, difundindo a música das harpas paraguaias a todo o mundo.

Na tarde de sexta-feira, enquanto se realizava um concerto prévio no pátio da antiga casa do ditador Alfredo Stroessner, em Humaitá (residência vizinha às Ruínas, atualmente convertida em hotel), membros da equipe da Rede Globo inflaram, às margens do rio, o enorme globo aerostático, pintado com as vivas cores do arco-íris.

Mas, quando o globo levantou voo, em meio a uma multidão de curiosos que observavam do alto do barranco, um detalhe aparentemente minúsculo chamou a atenção: em um dos cabos, ondulava uma pequena bandeira brasileira, com sua inconfundível prosápia “verde-amarela”, o que arrancou gritos e vaias da multidão.

“Fora, rapai!”, “Outra invasão brasileira…!”, eram alguns dos gritos que se escutavam entre a multidão incomodada.

Alguém propôs uma solução prática: agregar também uma bandeira paraguaia. O globo da Globo voltou a baixar, um solícito funcionário arriou a bandeira tricolor que ondulava no mastro de Humaitá, junto ao busto do Marechal López, e a trouxe correndo até o veículo aéreo.

Rapidamente, amarraram-na no mesmo cabo, junto à bandeira brasileira, e então o globo voltou a subir e ganhar altura, em meio a aplausos e gritos de entusiasmo da multidão. Como a bandeira paraguaia era muito maior do que a brasileira, a sensação de triunfo coletivo foi maior.

Humaitá 2
O globo volta a subir, desta vez, já com uma bandeira paraguaia muito maior, diante dos aplausos da multidão. Foto: Fabián Fleitas.

“Nosso globo não é de guerra, mas de paz”, havia dito, poucos minutos antes, durante um improvisado discurso, o veterano repórter da Rede Globo, José Hamilton Ribeiro. Ele também havia confundido a palavra “balões” (globo) de Luis Szarán, pensando que se referia a outros “balões” (bolas de futebol), e lamentou que o Paraguai não esteja presente no próximo Mundial de Futebol, no Brasil, o que provocou muitas risadas.

Finalmente, a “guerra das bandeiras” não passou de um pitoresco incidente simbólico. As harpas puderam soar, vivas e alegres, enchendo de magia o entardecer nas Ruínas de Humaitá, e os colegas da Rede Globo puderam voar livremente com seu globo aerostático, desta vez, com duas bandeiras ondulando no ar, símbolos de duas culturas e dois países, registrando do alto as imagens de um dia histórico, de músicas e esperanças.

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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Uma resposta para Uma “guerra de bandeiras” entre Brasil e Paraguai em Humaitá

  1. Celso Leuzinger Humaytá disse:

    A cultura guarani, sobreviveu e vive até os nossos dias em especial o seu idioma, que é o elo principal de uma nação, com a sua história admirável, o colorido apaixonante de suas tapeçaria os sons das harpas e violas que parecem que transformam a sua história em ritmo apaixonante. Feliz aqueles que procuraram conhecer e conhecem alguma coisa daquele povo, tenho certeza que quanto mais conhecer, mais vai se apaixonar, pelos seus sabores culinários, o seu Terere, a pureza de sua população nativa, que para quem não sabe, são representados culturalmente por muitos de nossos grupos indigenas, e que o guarani um dia já foi também a nossa língua utilizada pela nossa população. Visitem o Paraguay, tenho certeza que ira acrescentar em muito a sua carga cultural e humana, parabens pelo projeto.

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