Perla Álvarez, uma camponesa na televisão

Quando aparecem as mulheres camponesas na televisão? Quando há uma disputa entre vizinhos; quando as rixas de bairro sobem de tom em guarani; quando há ocupações de terra e enfrentamentos com a polícia. “Tembi’u Rape” rompe esse paradigma e mostra na TV as mulheres camponesas em seus trabalhos diários, em seu mundo de chácara e cozinha. Trabalho e mais trabalho!

Fonte: Fátima Rodríguez (Ella.Paraguay.Com). Tradução Livre.
Link: http://ella.paraguay.com/especiales/perla-alvarez-una-mujer-campesina-en-la-television.html

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Perla Álvarez, apresentadora do Tembi’u Rape. Imagem: Oxfam.

Perla Álvarez Britez é oriunda de Pastoreo, departamento de Caaguazú. Tem a pele escura, o olhar profundo e a voz tranquila, como a de quem está completamente segura e consciente de cada palavra que emite. Perla é a apresentadora do Tembi’u Rape, o programa paraguaio de televisão feito em guarani finalista nos prêmios da Televisão América Latina (TAL) e que foi emitido, em parte, na Televisão Pública da Argentina. Atualmente, o programa segue sendo emitido na TV Paraguay, ex Televisión Pública.

Aos seus 42 anos, com dois filhos adolescentes, Perla está orgulhosa de ter se encontrado com o guarani. “Acima de tudo, minha identidade é camponesa. Estudei também arquitetura, mas não terminei a carreira, comecei a estudar guarani e fiquei no mundo do guarani, trabalhando com a língua e com a cultura. Isso me ajudou a encontrar minhas raízes culturais, que são de base camponesa. Venho de uma família absolutamente camponesa: minha mãe e meu pai são filhos de camponeses, de herança a herança, de geração a geração. Dali venho”, se apresenta.

Álvarez também é uma das referentes da Coordinadora Nacional de Mujeres y trabajadoras Rurales e Indígenas (Conamuri), uma organização de mulheres que buscam a transformação social com a participação ativa de mulheres. Este grupo levou adiante o programa de televisão que colocou a mulher camponesa na televisão de maneira diferente: mostrando sua culinária, sua maneira de preparar os alimentos e sua luta diária para ter pronto um prato de comida.

-Como trabalho a Conamuri?
A Conamuri tem dois grandes âmbitos de trabalho, tanto do ponto de vista organizacional como comunicacional: por um lado, a luta pela soberania alimentar e, por outro, a luta pela igualdade entre homens e mulheres, principalmente sobre a não-violência com relação às mulheres. Fundamentalmente, trabalhando por um mundo livre de violência contra as mulheres, e que essa liberdade sem violência permita a maior participação de mulheres camponesas e indígenas em todas as instâncias e todas as dimensões da vida social.

-Foi nesse contexto da luta pela “soberania alimentar” que você chegou à televisão com Tembi’u Rape?
-Realmente foi tudo uma surpresa. Quando surge a TV Pública e quando ela estava em etapa de preparação da grade de programas, havia-se convocado um concurso de programas de televisão. Tomas Palau, da Base IS, havia contatado a Conamuri para planejar, juntos, um programa sobre soberania alimentar sob o lema “Alimento são, povo soberano”. Então, conversamos e dissemos que faríamos o programa. Era um concurso, então convocamos a Cooperativa de Comunicadores Aty.Com para que nos ajudassem com a proposta técnica e a base das ideias. Houve uma convergência entre as ideias da Base IS, da Conamuri e da Aty.Com, sendo, assim, fácil engatilhar o trabalho. Ali, surgiu o tema de quem conduziria o programa. Eu estava participando pela Conamuri da etapa de discussão do programa sem que tivéssemos falado ainda sobre quem seria a pessoa que levaria adiante o programa. Inicialmente, havia-se pensado em um bloco sobre culinária no estúdio, outro bloco com um especialista de direito à alimentação e outro em que se falasse sobre sementes, de algum produtor ou produtora camponesa. Quando minhas companheiras foram participar da última reunião de preparação, questionaram sobre o porquê de se fazer em um estúdio. Perguntaram “por que não ir à casa das companheiras e dos companheiros e, ali, ver como se cozinha uma refeição paraguaia? Porque a ideia era aproveitar nossa cultura alimentar para falar de soberania alimentar e direito à alimentação.

-Assim você se converteu em apresentadora de televisão?
-A palavra não é tanto “apresentar”, mas “moderar” a conversa. Como o planejamento implicava em se trabalhar com mulheres camponesas e indígenas, a apresentadora deveria ser alguém que falasse guarani. Todo mundo se voltou e me olhou! E eu disse: nunca fiz culinária, nunca cozinho, a última coisa que faço é entrar na cozinha! Nunca fiz televisão! Mas não se tratava de saber cozinhar nem de saber de televisão.

-Como foi essa experiência?
-A experiência de fazer este programa foi maravilhosa. Aprendi muito com meus companheiros e companheiras de equipe técnica, com cada família com que fomos cozinhar, com a relação entre as pessoas com quem cozinhamos, com as comunidades onde nos inseríamos e com minhas companheiras que faziam a crítica sobre cada programa na pós-produção.
O programa se deu de uma maneira muito natural. A questão era deixar correr e fluir a conversa. Era muito pouco editado. Praticamente só se editavam os finais e os inícios de cada bloco. Algumas pessoas me dizem que falta mais trabalho de edição. Recebemos muitas críticas – não sei se construtivas ou destrutivas –, por exemplo, me criticavam por minhas repetições, que muitas vezes é lógico na expressão oral.

-Muitas pessoas recordam terem visto um programa em que você corre atrás de uma galinha para logo mostrar como se prepara um caldo de galinha. Há cenas que vocês tiveram que cortar?
-A única cena que havíamos cortado foi a cena de degolar a galinha, porque sabíamos também que o programa era visto por gente vegetariana que tem uma crítica ao tema de como se tratam os animais. Contudo, na cultura camponesa e indígena, a forma pela qual se tratam os animais no momento de matá-los para poder consumi-los não tem a carga negativa do que se faz a nível empresarial, de deixá-los com uma tensão que logo também repercute em nossa alimentação.
Se analisarmos, não tem essa força negativa que tem a produção industrial de matar dez mil galinhas em meia hora, com máquinas. Não tem essa dimensão. No final das contas, a produção animal é para o consumo das famílias e para a venda no mercado local, em todos os casos. Então, nesse sentido, esse capítulo cortamos, mas como era mostrada uma partezinha em que corríamos atrás da galinha e outra em que depenávamos a galinha, também recebemos muitas críticas. E assumimos as críticas. Há gente que nos dizia que o programa precisa ser mais político, porque falávamos de soberania alimentar, e outras pessoas diziam que era muito político.

-A intenção do programa era política?
-Sim, o programa tinha uma intenção política: debater na televisão pública a soberania alimentar e valorizar o trabalho das famílias camponesas e indígenas. Todo esse trabalho que significa a produção no campo para chegar à mesa. Então, era ver quais dificuldades havia em todo esse processo de produção até chegar à mesa, em qualquer das famílias, fosse urbana ou camponesa. Visualizar essa problemática implicava tratar necessariamente de temas que tinham a ver com o entorno, com a comunidade. Tratamos do tema da soja, como é que a produção de soja tem tomado territórios de produção de alimentos, ou, por exemplo, o contrabando de hortaliças que tem afetado a produção das famílias camponesas. Ou seja, ir além de falar das receitas tradicionais ou que têm um toque familiar.

-Como é uma receita com toque familiar?
-Em um dos programas, falamos da “galinha com roupa”, uma receita que faz parte de uma tradição familiar. É a galinha forrada com chipa. É uma extraordinária história de uma família que faz este prato todo ano para presentear na semana santa e no ano novo o padrinho ou a madrinha. Então, também o programa mostrava como se recria a cultura culinária camponesa em nosso país, buscando-se também o componente artístico e o componente cultural, indo além da mera receita.

-Estar na televisão lhe abriu outras portas?
-Sim, tanto para mim como para a Conamuri. Fez-se conhecer uma problemática e uma vivência nunca antes vista na televisão de uma maneira tão natural, e isso deu um reconhecimento pessoal a mim. Muita gente começou a tomar-me como referência em assuntos de soberania alimentar ou em assuntos de cultura camponesa ou indígena. Muita gente se confundia sobre se eu era indígena ou camponesa. Aqui em nosso país, é há de se diferenciar: é diferente ser indígena e ser camponês. Abriu-se a mim essa questão de reconhecimento pessoal e também de reconhecimento da luta das mulheres, porque em todos os programas tratamos de mostrar todo o trabalho não visto, não valorizado por trás de cada prato de alimento e de cada chácara. Pode ser que a mulher não vá todos os dias carpir como fazem os homens, mas por trás desse trabalho que fazem os homens, há alguém que está sustentando gratuitamente todos os dias essa produção. A isso também tratamos de dar visibilidade.

-Geralmente, não existe uma visibilidade da importância da mulher camponesa na economia familiar.
-É um tema que trabalhamos no programa. Por exemplo, o tema da comercialização que as mulheres realizam diariamente em sua casa, gerando um ingresso econômico, não é valorizado em termos econômicos: trocar ovos por queijo, o intercâmbio ou mesmo a venda. Em situações de problemas de saúde – problemas cotidianos das comunidades camponesas mais afastadas – são as mulheres que cobrem esta necessidade imediata com a venda de suas galinhas, porcos ou outros animais.

-Como tomaram a indicação aos Prêmios TAL?
-Foi uma surpresa, porque em um momento de golpe de estado que estávamos vivendo, veio a proposta de apresentar um ou dois programas por país à Televisión de América Latina. Apresentou-se o Tembi’u Rape como uma proposta em duas categorias: Programas Inovadores e Programas de Conteúdo Social. A categoria em que foi selecionado foi “Programas Inovadores”.
Qual é a inovação se o que mostramos é a tradição? A inovação consiste em mostrar o tradicional de forma natural, mais ou menos essa foi a lógica por que o programa entrou nessa categoria.

-Venceram? O que aconteceu?
-Havia dois tipos de votos: um do público e outro do jurado técnico. Tivemos a maioria absoluta no voto do público, não só a nível nacional como a nível internacional. Para o voto técnico, não conseguimos a pontuação, mas acreditamos que isso se deveu a uma questão política, porque não era o Tembi’u Rape que ia ser reconhecido, mas a TV Pública.
Sem tirar o mérito do programa colombiano com o qual competimos, o aporte que poderia dar o Tembi’u Rape não só ao Paraguai, mas, também, à região, era importante: porque é o único programa absolutamente em guarani que reflete uma língua e uma cultura autóctone não só do Paraguai, mas da região… e a cultura alimentar de nosso país também tem uma expansão regional. Tanto no Brasil como na Argentina também vão tomando essas nossas práticas culturais. Acreditamos que poderia ter tido mais chances. No entanto, o reconhecimento a nível de América Latina foi extraordinário e recebemos um pedido da TV Pública Argentina para sua reprodução. Utilizaram 5 capítulos, que são os que estão legendados.

-Que espaços têm a mulher camponesa na televisão?
-Nos momentos de conflito, nas seções policiais ou nos momentos sensacionalistas é quando aparecem os camponeses ou camponesas na televisão. Com este programa, o que fizemos foi dar um espaço de importância às mulheres camponesas no sentido de que as mostramos de maneira propositiva e inteligente; mostramos as camponesas debatendo política, porque a alimentação é um tema político, a produção é um tema político, e, nós, as mulheres, temos muito que contribuir nesse sentido. Essa imagem de mulher trabalhadora, produtora, mulher gerente de sua comunidade e de sua família. Essa imagem de uma mulher protagonista, que com a luta cotidiana para dar de comer a seus filhos e filhas, está fazendo política. Essa imagem de mulher protagonista é uma questão política.

-Como transcorre a vida de uma lavradora no Paraguai?
Em nosso país, ser camponês ou camponesa não necessariamente tem a ver com ser agricultor ou agricultora. Porque ser camponês ou camponesa é uma cultura, é uma forma de ver a vida.

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Perla, com uma família, em Tembi’u Rape. Foto: Roge Ocampos.

-São machistas os camponeses?
-Muito machistas! Há exceções, mas muito poucas, e a nível “gerencial” nem se fala. Esse é um tema da sociedade, e sobretudo do campo, mas a nível da “gerência” se eleva à potência máxima. Parece ser que culturalmente se assentam sobre este pseudo poder de exercer a força sobre todas as mulheres.

-O que acontece com a Conamuri e seus afiliados? Como afronta este tema do machismo?
-Sentimo-lo na própria carne. É uma luta cotidiana a nível das “gerências” e a nível das bases. Quando há uma mobilização, estão todinhos os homens, na hora da conferência de imprensa, mas depois, já logo dizem: “ah, temos que ter uma mulher!”, para decorar o ambiente. Não porque é importante o que ela possa dizer ou apontar, mas porque é politicamente correto ter uma mulher na mesa. Se a Conamuri convoca uma reunião, os dirigentes muitas vezes não vêm, porque dizem: “não vamos aonde mulheres nos convocam”.

-Há casos em que vocês têm que ir com os maridos para explicar que alguém tem que participar de uma reunião?
-Nas comunidades fazemos bastante isso. O que fazemos são reuniões e convidamos os companheiros das companheiras, trabalhamos com os jovens, e nessas reuniões, explicamos que o trabalho da organização não é contra os homens, mas contra uma cultura machista, que para isso necessitamos também do apoio dos companheiros. Falamos disso. Não é fácil, as mulheres, para poderem atuar em organizações, necessitam duplicar seu trabalho: para virem em dois dias de reunião, necessitam preparar tudo dois dias antes, designar com quem vão deixar os filhos, com quem ficará a galinha, quem vai cuidar do porco. Isso geralmente os companheiros não fazem, mas uma vizinha, a irmã, a mãe, outra mulher. Quando voltam, devem dar toda uma justificativa de por que voltaram uma hora depois do combinado ou, por que o coletivo não chegou, não puderam sair de noite, ou porque a reunião se estendeu. Por sua vez, os homens não têm que fazer o mesmo.

Veja, abaixo, dois episódios do programa Tembi’u Rape:

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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