Pesquisadora brasileira fala sobre o filme 7 Caixas em resenha crítica

Fonte: Rosângela Fachel (DTS Cinema em Casa).
Link: http://dtscinemaemcasa.com/blog/2013/08/16/7-caixas-7-cajas-2012-de-juan-carlos-maneglia-e-tana-schembori-paraguai/

7 caixas (7 cajas – 2012), de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, Paraguai

Qual o mais comum sonho de consumo de qualquer adolescente? Com certeza, é possuir um celular de última geração. Em 2005, surgiam no Paraguai os primeiros aparelhos com câmera de vídeo. E é para poder comprar um celular destes que Victor, um carregador de compras de dezessete anos, aceita transportar sete caixas de conteúdo desconhecido pelos labirínticos e efervescentes corredores do Mercado 4 de Asunción, no Paraguai. A incumbência, a princípio simples, vai se complicando: uma das caixas é roubada, Victor perde o celular usado para contatar seu contratante e um bando de carregadores o persegue querendo sua carga enquanto a polícia percorre o Mercado 4 tentando desvendar um crime. Para escapar às reviravoltas e tentar entregar as caixas em seu destino, Victor contará com a ajuda de sua amiga, Liz.

“Quero fazer um thriller de ação hollywoodiano”, com essa proposta Juan Carlos Maneglia convidou Tana Schémbori a codirigir 7 cajas, projeto que nasceu em 2004, foi pré-produzido em 2009, filmado em 2010 e finalizado em 2011 com o auxílio do prêmio En Construcción do Festival de Cine de San Sebastián, primeira de muitas láureas que o filme viria a receber após o seu lançamento em 2012.

7 cajas mescla a linguagem cinematográfica canônica hollywoodiana à estética neorrealista do cinema contemporâneo (câmera na mão e iluminação naturalista) e à velocidade publicitária dos vídeos-clipes, entretecendo a narrativa com uma boa dose de humor negro, para compor um legítimo thriller de ação paraguaio. Pois, se esteticamente o filme se apropria de uma linguagem consolidada pelo mainstream, ele a reconfigura através da voz paraguaia que a lê com sotaque. E é justamente através dessa voz que a identidade híbrida e compósita do Paraguai transborda do filme e nos invade. Somos surpreendidos pelo estranho e fascinante yopará falado pelos personagens, dialeto que não apenas mistura o espanhol e o guarani, mas os amalgama criando um castelhano falado em guarani. E, desde as primeiras cenas, somos imersos na paisagem sonora do Mercado 4, expandida pela trilha composta pelo grupo paraguaio Revolber, que mistura os ritmos tropicais e folclóricos, ouvidos nas vielas do mercado, ao estilo musical transnacional, rock/rap metal/funk metal, da banda.

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O Mercado 4, lugar icônico de Asunción, que inspirou em Maneglia a idéia do filme e que em função do orçamento foi sua única locação, se revela um cenário orgânico que pode ser visto como mais um personagem da trama, ao qual está atrelada a epopéia de Vitor. E, assim como em todas as favelas, villas e guetos latino-americanos, a identidade do Mercado 4 surge da tensão entre o local e o global. E o núcleo de personagens coreanos que, apesar de economicamente inseridos, estão social e culturalmente apartados, falando coreano sem que ninguém os entenda, revela as fraturas desse ambiente multicultural no qual a globalização econômica iguala os desejos de consumo, mas não resulta em uma mundialização cultural. Ao retratarem o Mercado 4, Maneglia e Schémbori retratam toda a América Latina e dão um novo significado à idéia de Aldeia Global.

A globalização inebria Victor assim como a tantos outros jovens latino-americanos. O fascínio contemporâneo pelo “show do eu”, sintoma da acessibilidade crescente às tecnologias de captação e difusão de imagem, é o ponto de partida da trama de 7 cajas: uma vez que Vitor, tal Narciso, se encanta ao ver-se nos televisores da vitrine, que conectados a câmeras apresentam sua imagem em tempo real, e se deslumbra ao ver-se registrado pela câmera do celular. Estes episódios justificam sua sanha pelos cem dólares prometidos pelo carregamento das caixas e prenunciam seus almejados minutos de fama midiática.

7 cajas é um filme extremamente engajado à estética, à cultura e à identidade paraguaia, mas sem esquecer que cinema é entretenimento. E com o mérito de não sucumbir à mera repetição de padrões estéticos e narrativos hollywoodianos, mas construindo uma linguagem própria através da apropriação e da transformação destes elementos. Derrubando a máxima de que filmes latino-americanos que são consagrados em festivais e aclamados pela crítica não alcançam sucesso de bilheteria nacional e, por conseguinte, de que filmes taquilleros não possuem qualidade artística nem identidade nacional. A fórmula transcultural de 7 cajas, que agrega, transforma e imbrica elementos de diferentes tradições e culturas, aponta um caminho possível para unir qualidade artística, identidade nacional e sucesso comercial.

7 cajas foi realizado em um país onde ainda não existe uma “lei do cinema” e tampouco há subvenções ou ajudas governamentais à produção cinematográfica e cuja história do cinema nacional se resume a pouco mais de vinte filmes exclusivamente paraguaios, sendo os demais realizados em coprodução, geralmente, com Argentina ou Uruguai. Por tudo isso, seu êxito é ainda mais significativo, pois não apenas é a maior bilheteria nacional alcançada por um filme paraguaio, é a maior bilheteria de um filme no Paraguai, superando inclusive a Titanic. O cinema paraguaio, que vinha se anunciando tímida e esporadicamente, irrompe em grande estilo dando uma aula de como enfrentar a hegemonia do modelo hollywoodiano, utilizando-o em favor do cinema nacional. O sucesso de 7 Cajas nos revela que os paraguaios e, por conseguinte, os latino-americanos, estão, assim como Vitor, ansiosos para verem-se e ouvirem-se nas telas.

Mas o que há afinal nestas sete caixas? Eu diria que é o mesmo que há na Caixa de Pandora: esperança; esperança em relação ao futuro do cinema paraguaio.

Rosângela Fachel

Doutora em Literatura Comparada pela UFRGS e pesquisadora do

Grupo Cinema Latino-americano da UFF

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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3 respostas para Pesquisadora brasileira fala sobre o filme 7 Caixas em resenha crítica

  1. alexeap disse:

    Ótimo filme! Mais uma prova de que o talento está presente, geralmente o que falta são os recursos! Tem uma crítica em http://www.artigosdecinema.blogspot.com/2014/06/7-caixas-7-cajas.html

  2. Maicon disse:

    Sou brasiguaio (filho de brasileiros imigrantes no Paraguai e morei lá 24 anos), estudante de Comunicação e Multimeios na UEM em Maringá e começando minha caminhada na produção audiovisual e tenho que agradecer muito ao filme “7 Cajas”, foi o culpado de despertar em mim essas ganas de cinema. O país todo se comoveu com a trajetória dessa produção, se alegraram e apoiaram sua divulgação (os camelôs se negavam a vender o filme pirata gravado no cinema). Quero um dia voltar e poder trabalhar nessa terra rica.

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