Paraguaias que migram ao Brasil

Uma pesquisadora brasileira percorre a história de vida de mulheres paraguaias que migraram a São Paulo.

Fonte: Fátima Rodríguez (Última Hora, PY), 13 de abril de 2015. Tradução livre.

Link: http://www.paraguay.com/nacionales/paraguayas-que-migran-a-brasil-126579

Dora tem 39 anos e dois filos. Mediante sua experiência, uma pesquisadora brasileira da Universidade de São Paulo conta a história da migração de mulheres paraguaias ao Brasil.

Dora chega a São Paulo em 2002 graças a um programa do Canal 13, segundo relata. Oriunda de Encarnación, Dora viaja em meio ao desespero. Buscava ajuda para seu pequeno filho de seis meses, em quem haviam detectado câncer.

Ela pensava que iria somente por duas semanas, mas a história muda com os estudos médicos, e ela deve permanecer na cidade brasileira por seu filho. Após um tempo, Dora engravida outra vez de seu marido, que segue vivendo no Paraguai. Para manter-se, deve trabalhar em pequenos serviços, limpeza e costura.

“Como muitos imigrantes, eu também trabalhei na costura. Foi e 2011, como cortadora de peças-piloto. Meu patrão era coreano, e não foi uma experiência muito boa. Senti os coreanos muito autoritários. Obviamente, por terem mais possibilidades, são patrões”, diz.

“Alguns paraguaios têm suas próprias oficinas, mas são muito poucos. E, como não conhecemos nossos direitos trabalhistas e necessitamos de dinheiro, temos que nos calar, temos que passar por muitas humilhações, justamente pelas necessidades, para poder ter algum dinheiro para sobreviver”, expressa.

“É por isso que muitas vezes nos submetemos àqueles que podem mais. Eu cheguei a ser muito submissa a um coreano. Foi realmente muito difícil, mas hoje digo a mim mesma que valeu como experiência para saber como lidar com uma situação assim, para saber que tenho direitos. Nos próximos trabalhos, não vou deixar que me façam o mesmo. Agora sei que tenho direitos como trabalhadora. Sei que muitas pessoas não pensam da mesma fora e vão pensar que precisam do dinheiro, que têm uma família para sustentar, que não é tão ruim como se diz”, conta Dora na tese de Marina Martins Novaes.

Marina Novaes

Marina Novaes. Foto: Facebook

A investigadora é graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e mestra em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). O contexto de vulnerabilidade e ineficiência da aplicação das leis de forma igualitária no Brasil – sustenta Marina – é a razão pela qual seus trabalhos pretendem ser uma abordagem para o acesso à justiça.

Marina trabalha em temas de migração, tráfico de pessoas e trabalho escravo desde 2006, e, desde 2013, é funcionária da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania na Prefeitura de São Paulo, onde o objetivo é coordenar e combater o trabalho escravo. Nesta nota, responde sobre o contexto de seu trabalho:

– De que tratou sua dissertação de mestrado?

– Meu trabalho de mestrado teve como título “Sujeitas de Direitos: história de vida de mulheres bolivianas, peruanas e paraguaias na cidade de São Paulo”. Baseia-se em uma investigação da história oral através de entrevistas. A partir da história de vida de cinco mulheres migrantes, analisa-se a atualidade da migração de pessoas da Bolívia, Paraguai e Peru que escolheram viver na cidade de São Paulo.

A conquista de espaços urbanos, uma liberdade relativa na hora de escolher a profissão e a mobilidade como saída da opressão familiar são discutidas ao mesmo tempo que a criação da transnacionalização familiar e s atividades que exploram as vulnerabilidades das pessoas, como o trabalho escravo e o tráfico de pessoas.

– O que pode ser dito sobre as mulheres paraguaias que chegam a São Paulo?

– As mulheres paraguaias entrevistadas recorreram à migração como uma forma de melhorar algum aspecto de suas vidas. Uma delas não conseguiu dar prosseguimento ao tratamento de saúde de seus filhos e necessitou vir ao Brasil. Outra, pensa em estudar política e voltar ao seu país.

– Em que trabalham as mulheres paraguaias que vão ao Brasil?

– Não gosto de generalizar, mas muitas paraguaias que conheci como advogada especializada em migração trabalham em oficinas de costura.

– Existe uma aproximação quantitativa sobre o número de paraguaias em São Paulo?

– Não existem números exatos sobre a migração sul-americana no Brasil, já que muitos cruzam as fronteiras em direção ao Brasil como turistas e acabam se estabelecendo aqui.

– Retornar para casa está nas perspectivas das mulheres consultadas na pesquisa? Pensam em regressar ao Paraguai ou se fixaram no Brasil, como costuma acontecer, por exemplo, na Argentina?

– As mulheres consultadas estão satisfeitas residindo no Brasil, mas o vínculo que existe com o Paraguai é grande. Pelo menos uma vez ao ano viajam ao Paraguai.

– De que se trata sua obra “Tráfico de pessoas: reflexões para a compreensão do trabalho escravo contemporâneo”?

– Na obra, não se fala especificamente sobre migração, pois trata-se mais da necessidade de disciplinar o trabalho escravo de maneira conjunta e não concorrente no enfrentamento ao tráfico de pessoas, sem que seja necessário optar por um ou por outro, uma vez que o instrumento internacional de enfrentamento ao tráfico de pessoas é um instrumento de direitos humanos.

A migração histórica de paraguaios à Argentina e à Espanha hoje tem um novo componente para a análise.

O retorno nem sempre é o caminho para os que se veem afetados pela crise espanhola ou o tipo de câmbio da moeda da Argentina com relação ao Guarani.

O Brasil também acolhe paraguaios cuja primeira migração foi a outro destino. Os números oficiais hoje falam que a maioria são homens que vão ao país de Dilma Rousseff e dos reis da soja.

* * *

A dissertação de mestrado de Marina Novaes, intitulada “Sujeitas de direitos: história de vida de mulheres bolivianas, peruanas e paraguaias na cidade de São Paulo”, está disponível para consulta pública no seguinte link:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-14012015-104519/pt-br.php

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Sobre paraguaiteete

O Núcleo Cultural Guarani “Paraguay Teete” nasceu em junho de 2009 em São Paulo, Brasil, da mão de admiradores da cultura guarani residentes nessa cidade para difundir a rica cultura da República do Paraguai. Dentre os principais objetivos do Núcleo, podemos destacar: 1. Gerar uma imagem diferente daquela que muitos brasileiros têm do país (como por exemplo, a ideia de que o Paraguai se reduz a Ciudad del Este) por meios de eventos culturais tais como apresentações de documentários, palestras, gastronomia, música e cursos. 2. Fortalecer a identidade cultural de paraguaios e descendentes residentes no Brasil por meio da difusão permanente da cultura e da língua Guarani. 3. Proporcionar espaços e contatos para os profissionais paraguaios das diferentes modalidades artísticas, dando-lhes a possibilidade de ter acesso ao rico circuito cultural brasileiro e, em contrapartida, oferecer a mesma oportunidade para brasileiros que queiram conhecer ou desfrutar da autêntica cultura paraguaia. 4. Defender a dignidade, a imagem e a história do Paraguai e dos seus descendentes perante situações discriminatórias, tratos pejorativos, piadas e chacotas que a mídia do Brasil vem produzindo constantemente. 5. Acionar a Polícia Federal contra criminoso que usam a internet para caluniar com comentários racistas que violem a Lei Nº 7.716/89: Art. 1° diz “Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Assim como o Art. 20° que diz “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. El Núcleo en castellano: El Núcleo Cultural Guaraní "Paraguay Teete" nació en junio de 2009 en la ciudad de São Paulo, Brasil, de la mano de admiradores de la cultura guarani residentes en esta ciudad para difundir la rica cultura de la República del Paraguay. Entre los objetivos se encuentran: 1. Generar una imagen diferente de la que los brasileños tienen del país (entre otras ideas de que piensan que Paraguay se reduce a Ciudad del Este). 2. Fortalecer la identidad cultural del paraguayo y de sus desendientes residentes en el Brasil a través de la difusión permanente de la Cultura Guaraní resaltando siempre el idioma Guaraní. 3. Proporcionar espacios y contactos para los profesionales de las diferentes modalidades artísticas, dándoles la posibilidad de acceder al rico circuito cultural brasileño y a
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