“A alma e a palavra não se separam” – A preservação da língua guarani no século XXI

Entrevista com Miguel Ángel Verón, linguista, diretor geral da Fundação Yvy Marãe’ỹ, membro de Número do Guarani Ñe’ẽ Rerekuapavẽ (Academia da Língua Guarani), diretor do Ateneu de Língua e Cultura Guarani, na cidade paraguaia de San Lorenzo, e professor da Universidade Nacional de Asunción.

Por Paulo Mortari A. Correa

 

Entre todos os idiomas autóctones da América Latina, ainda que guarde diferenças com relação às suas formas mais arcaicas, o guarani é um caso de excepcionalidade tanto pelo número de falantes atualmente – segundo estimativas, são cerca de oito milhões de pessoas, sendo a maioria habitante do Paraguai, e as demais, distribuídas por países como Argentina, Brasil e Bolívia [1] – como por sua significativa presença também em zonas urbanas e pelo reconhecimento constitucional como uma das línguas de uso oficial de um Estado – o paraguaio.

O histórico de resistência do guarani data do início dos tempos coloniais. Na então Província do Paraguai, o idioma logrou sobreviver às tentativas dos colonizadores espanhóis de dar exclusividade ao uso do castelhano, esforço, de certo modo, prolongado pelos governos constituídos após a independência do país, que, em larga medida, ampliaram a inutilização do guarani na administração pública e intensificaram sua exclusão do sistema formal de educação.

Apesar de marginalizado em âmbito estatal, o idioma conquistou certo prestígio nas duas guerras que o Paraguai enfrentou – a dizer, a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) e a Guerra do Chaco (1932-1935) –, sendo amplamente utilizado pelos militares a fim de evitar que os oponentes tivessem conhecimento sobre táticas e estratégias, ainda que, ao fim das beligerâncias, seu afastamento das grandes publicações e instituições públicas e depreciação perante o castelhano tenham persistido. Apesar disso, enquanto era alijado da esfera da formalidade, o guarani se manteve vigoroso na informalidade – por onde, justamente, a vida mais respira –, a ponto de ser a língua de maior referência do país, sustentada por seu amplo uso popular, em que se incluem conversas entre pais e filhos nos lares e cantorias de jovens em encontros de amigos.

Hoje, o guarani, de acordo com estatísticas recentes, continua sendo o idioma mais falado no Paraguai, além de ter conquistado o simbólico reconhecimento como “língua oficial” pela Constituição Nacional. Ainda assim, sua preservação, na prática, segue ameaçada por fatores como o baixo uso na esfera pública e a então queda nos casos em que mães e pais paraguaios residentes tanto no próprio país como no exterior repassam a língua a seus filhos.

A debilitação do guarani, além de prejudicar a vida daqueles que se comunicam apenas através dele – caso de camponeses forçados a migrar de zonas interioranas a grandes núcleos urbanos em decorrência da perda de terras para a expansão do agronegócio monocultor, enfrentando dificuldades de inserção no mercado de trabalho ao não ter o domínio do castelhano ou da língua de outro país ao qual possam emigrar –, acarreta em incomensurável perda cultural e identitária aos habitantes e imigrantes do Paraguai, cuja forma de pensar está fortemente calcada no que o idioma lhes proporcionou ao longo de tanto tempo. A reversão deste quadro, contudo, é possível e poderia ocorrer com planejamento linguístico adequado e com a própria aplicação de instrumentos já existentes – caso da chamada Lei de Línguas, de 2010 –, como nos conta o linguista e professor Miguel Ángel Verón na entrevista transcrita a seguir.

 

Miguel Ángel Verón - foto

Miguel Ángel Verón. Foto gentilmente cedida.

PARAGUAI TEETE:

Em 2014, publicou-se um artigo seu na Revista Travessia (TRAVESSIA. Revista do Migrante. Publicação do Centro de Estudos Migratórios de São Paulo, ano XXVII, n° 74, Janeiro – Junho/ 2014, p. 109-118) [2], intitulado “Los migrantes paraguayos y la lengua guaraní” (“Os migrantes paraguaios e a língua guarani”, em tradução livre). Uma das coisas que você diz no texto é que o idioma guarani conseguiu sobreviver à imposição do castelhano pela Coroa Espanhola nos tempos coloniais a ponto de ser falado atualmente pela maioria da população paraguaia e ser declarado um dos idiomas oficiais do país, algo que não se vê com tal magnitude em nenhum outro país da região. A que se deve esse feito?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Para responder a essa pregunta, deve-se conhecer a história paraguaia e, também, a situação socioeconômica e sociolinguística do país. Em primeiro lugar, há de se entender que não é certo que o paraguaio sempre foi bilíngue. Esse é um mito que nunca entrou em minha cabeça. Defendo, como outras pessoas, que o Paraguai foi, durante boa parte de sua história, monolíngue guarani.

Durante o período colonial, uma porcentagem mínima de pessoas falava o castelhano. O idioma dominante era, sem dúvidas, o guarani. Inclusive, investigações recentes mostram que o guarani era utilizado em alguns documentos oficiais, em sua variação escrita. O uso oficial do guarani passou a ser abandonado somente após 1811, ou seja, depois da independência paraguaia. Nesse momento, provavelmente cinco por cento da população – não mais do que isso – falava castelhano, e não havia no país sequer uma pessoa que não falasse guarani. Ou seja, os estrangeiros que vinham ao Paraguai inevitavelmente tinham que aprender guarani. Tanto foi assim que a Igreja católica, em 1603, decidiu que os religiosos no Paraguai – e aqui, referimo-nos aos religiosos estrangeiros – não podiam praticar o catecismo ou ensinar a fé cristã sem antes aprender o guarani, o que contribuiu para o fortalecimento da língua.

O guarani, então, se impôs como língua única no Paraguai. E por que isso? Deve-se entender que no Paraguai, em seu tempo de colônia, havia muito pouca presença de espanhóis, e os espanhóis que vinham eram majoritariamente homens. As mulheres espanholas somente chegaram ao país muito tempo depois. Desse modo, entende-se que os espanhóis, por muito tempo, formaram pares com os indígenas, e para viver em um país onde somente se falava o guarani, tiveram, necessariamente, que falar o guarani. Então, desde a colônia até a independência, só se podia viver no Paraguai falando guarani.

Desde a independência até mais ou menos 1950 ou 1960, creio, também não se podia viver no Paraguai sem saber o guarani – ainda que o uso oficial da língua tivesse começado a declinar. Não se podia viver no Paraguai somente com o castelhano, pois essa era uma língua minoritária no país. Por volta de 1811, aproximadamente 5% da população sabia falar o castelhano, e não estou me referindo aos monolíngues castelhanos. Desse modo, 95% não sabia essa língua. E o guarani era falado por cem por cento da população.

Em 12 de fevereiro de 1812, no entanto – menos de um ano após a independência –, a Junta Superior Governativa do país decidiu que a língua da educação paraguaia seria o castelhano, não o guarani. Esse cenário apenas se agravou com o final da Guerra da Tríplice Aliança, em 1870 [3], já que, por decreto, o governo-fantoche controlado por Argentina e Brasil proibiu o uso do guarani nas escolas.

Então, na verdade, conforme vejo, o Paraguai foi, ao longo de sua história e em grande medida, monolíngue guarani. O castelhano foi crescendo aos poucos e se impondo como língua oficial, língua do trabalho e língua da educação, a ponto de já ser impossível viver no Paraguai somente com o guarani. O Estado paraguaio, em mais de duzentos anos, não teve a vontade de garantir que os falantes de guarani vivessem sua língua própria, já que sempre funcionou em castelhano.

No entanto, o guarani sobreviveu ao longo do tempo – feito, em alguma medida, explicado pela trajetória histórica que brevemente expus – e mantém sua vitalidade até os dias de hoje, o que se deve a, pelo menos, duas razões. A primeira delas é a lealdade e o orgulho que nós, falantes de guarani, temos pela língua. Já a segunda é que, no Paraguai, nem sempre tivemos a oportunidade de aprender o castelhano – língua de prestígio, escutada e lida em todas as partes hoje. Agora que o temos, o guarani enfrenta um futuro incerto. Somente uma política linguística diferente das que têm sido impostas desde o momento da independência pode garantir a vitalidade futura dessa língua.

O guarani, de fato, tem avançado muito no campo legal. A Constituição Nacional de 1967 o reconheceu como “idioma nacional”, enquanto que a de 1992, como “língua oficial”, ao lado do castelhano. Em 2010, sancionou-se a Lei de Línguas [4]. Temos, hoje, ademais, a Secretaria de Políticas Linguísticas e a Academia da Língua Guarani, e o guarani segue sendo a língua mais falada no Paraguai. A nível regional, o guarani é, também, idioma oficial do Mercosul e língua de trabalho do Parlasul, além de ser ensinado em universidades de vários países, como o Brasil. Apesar disso, é uma língua menos valorizada, que ainda não possui o mesmo prestígio do castelhano. É nesse sentido que estamos buscando [dentro das instituições e grupos aos quais Miguel pertence] que o status do guarani se equipare ao do castelhano.

 

 

PARAGUAI TEETE:

Costuma-se dizer que, enquanto o castelhano é o idioma dos negócios e da administração pública, o guarani é a língua do lar, da intimidade, da poesia. Isso se mantém até hoje?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Essa é uma situação ilógica que, sim, se mantém. O castelhano é a língua do prestígio, é a língua “alta”, a língua também da elite. O guarani segue sendo a língua da informalidade, e o castelhano, da formalidade. O guarani segue sendo a língua das ruas, do lar, e o castelhano, a única língua da universidade, dos escritórios e da administração do Estado. Ainda que funcionários falem entre si o guarani, o castelhano segue sendo a língua de uso escrito da função pública e também, certamente, a língua única de uso nas empresas privadas. Desse modo, essa situação linguística e ilógica ainda se mantém.

É necessário dizer, no entanto, que, sim, as coisas têm mudado um pouco. Há quinze ou vinte anos, via-se com maus olhos em empresas ou entidades públicas e privadas alguém que falasse guarani, o que tem sido superado.

Na realidade, temos avançado muito no aspecto simbólico do guarani, mas em seu uso normativo, avançamos muito pouco até agora. Por exemplo: se solicito a emissão de minha carteira de identidade, ela virá somente em castelhano. A Lei de Línguas, porém, diz que a carteira de identidade, o passaporte e outros documentos devem ser emitidos em guarani e castelhano. Mas já faz cinco anos que a Lei de Línguas saiu, e esses documentos continuam, todos, somente em castelhano. Não existe versão em guarani. Se peço, por exemplo, uma lei ou decreto no Parlamento ou no Executivo, apenas me fornecerão textos em castelhano, já que não há versão em guarani. Ou seja, no campo simbólico, o guarani está relativamente bem, mas no que concerne ao seu uso concreto, creio que ainda está longíssimo do esperado.

A Lei de Línguas estabelece claramente que o Estado paraguaio tem que funcionar tanto em guarani como em castelhano, já que ambas as línguas são oficiais. Temo, porém, que essa e outras normas “não deem em nada”. Como é comum aqui, se não há força social que impulsione isso, esses instrumentos não funcionam.

 

 

PARAGUAI TEETE:

De acordo com dados coletados por Bartomeu Melià – uma das maiores referências em estudos sobre os guaranis no Paraguai – e expostos por você, 60% da população paraguaia tem o guarani como língua materna. Ademais, você diz, em seu texto, que “o guarani chegou a esse século graças ao lar, à família, e apesar do Estado e da escola”. Você pensa que, hoje em dia, a realidade de exclusão do idioma guarani diante do castelhano na administração pública e no sistema de ensino tem começado a mudar? Em sua percepção, quais são os principais desafios que o guarani enfrenta para sua sobrevivência?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Esse dado está correto. Das pessoas de minha idade, por exemplo, que já passaram dos quarenta anos, 80% têm o guarani como língua materna. No entanto, lamentavelmente, entre os jovens de 15 a 20 anos, provavelmente 55% deles já tenham o castelhano como língua materna, e 45%, aproximadamente, o guarani.

E quais são os desafios? Eu diria que o grande desafio para a sobrevivência ou, neste caso, para assegurar a vitalidade do guarani para hoje e mais adiante é, justamente, que se cumpra a Lei de Línguas, o que, por sua vez, está relacionado ao planejamento do presente e do futuro da língua guarani. Quando fui Diretor Geral de Planejamento Linguístico na Secretaria de Políticas Linguísticas, havia iniciado a elaboração de um plano nacional de normalização das línguas, ou seja, um planejamento de todas as línguas. Quando saí de lá, comecei a desenvolver minha tese de doutorado, que foi sobre planejamento linguístico. Elaborei, então, um plano que pode ser desenvolvido a partir do Estado e com o apoio da sociedade por um período de dez anos para normalizar o uso da língua guarani.

Em planejamento linguístico, fala-se que há três ramos que devem ser trabalhados, sendo eles o planejamento do status, o planejamento do corpus e o planejamento do aprendizado. O desafio é, precisamente, o seguinte: planejar e fazer com que o Estado atue como se faz na Catalunha, na Finlândia, na Galícia, no País Basco, etc., ou seja, que o Estado leve adiante a aplicação de um plano de línguas.

O planejamento do status significa justamente elevar o status da língua. O castelhano é uma língua que tem um status mais elevado que o guarani. Por conseguinte, deve-se fazer o esforço, a partir do Estado e da sociedade, para equiparar o status do guarani ao do castelhano. O que significa isso? Que valorizemos, da mesma maneira, ambas as línguas, e que os paraguaios e paraguaias tenham orgulho de falar guarani da mesma forma que o castelhano. Que tenhamos motivos para usar, tanto na forma oral como na escrita, ambas as línguas. Por forças intrínsecas, as línguas não conseguem elevar seu status; este se eleva ou se reduz por meio de políticas públicas.

O planejamento do corpus nada mais é do que o trabalho que vem sendo desenvolvido na Academia da Língua Guarani. Significa, por exemplo, ter um dicionário oficial da língua guarani. Isso ainda não existe, mas estamos trabalhando nisso. É preciso que tenhamos um dicionário especializado em terminologia para a medicina, para a eletrônica, para a informática, para a química, para a física; ou seja, para todos os campos. Tal planejamento também consiste em se trabalhar na unificação da gramática e no modelo de guarani que usaremos, por exemplo, no Facebook, no computador e na internet.

Já o planejamento do aprendizado corresponde, fundamentalmente, ao Ministério de Educação e Cultura, caso realmente se cumpra a Lei de Línguas. Lamentavelmente, o Estado não tem um plano para o guarani, mas se este é elaborado e desenvolvido, creio que conseguiremos assegurar a vitalidade presente e futura da língua.

Minha tese de doutorado, que está escrita em guarani, será traduzida para o castelhano, e desejo publicá-la até o final do ano, de modo a ser uma humilde contribuição para a Secretaria de Políticas Linguísticas, para o Estado e também para a nação em geral. A ideia é que o Estado funcione em ambas as línguas e que o guarani possa ser sentido, visto e ouvido por todas as partes. Hoje, por exemplo, temos a seguinte situação: se uma pessoa viaja de Asunción a Ciudad del Este, não verá sequer uma legenda das placas de sinalização em guarani, ainda que a Lei de Línguas diga que isso deveria ocorrer. A Lei de Línguas diz, em seu artigo 3°, que o Estado paraguaio deve prestar atenção especial à língua guarani. O que significa isso? Significa que deve-se cuidar mais do guarani.

Com relação à sinalização das rotas, nós, particularmente, propomos que a versão em guarani não só seja incluída, mas que esteja na parte de cima das placas, enquanto que a versão em castelhano, abaixo. Aqui vão alguns exemplos: se uma placa diz “reduzca la velocidad” (“reduza a velocidade”), deve dizer também “Eho mbegueve”. Se diz “gire a la izquierda”, deve dizer também “Ejere nde asúpe”. Tudo isso tem importância para a língua, porque isso vai fazer justamente com que ela tenha status. Desejo que os canais televisivos, por exemplo, utilizem mais línguas – eles têm utilizado um pouco mais, mas ainda é insuficiente – e que todos os documentos públicos estejam em ambas as línguas.

 

 

PARAGUAI TEETE:

Através de seu artigo, é possível perceber uma relação entre a realidade do idioma guarani e padrões de exclusão social de paraguaios em seu próprio país. Como se diz, boa parte dos que têm o guarani como primeira língua são camponeses, muitos dos quais são expulsos de suas terras devido à expansão do agronegócio e se dirigem a grandes cidades, onde, com o uso de seu idioma materno, não conseguem ter acesso a empregos melhores. Assim, parece-me que a preservação do guarani e a garantia dos direitos dos que o tem como língua materna não depende apenas de políticas linguísticas, pois há uma realidade social mais ampla e complexa por trás disso, a qual, justamente, marginaliza aqueles que falam esse idioma ou provêm das regiões onde mais se o fala. Esse pensamento está correto?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Sua apreciação é totalmente correta. Por isso, digo que o planejamento linguístico advém da política linguística, e entende-se que a política linguística deve estar em consonância com as outras políticas que são impulsionadas a partir do Estado. Se foi possível, em 1992, através de um consenso, declarar o guarani, juntamente com o castelhano, como língua oficial, isso é decorrente de uma política de Estado que veio para impulsionar o uso equitativo de ambas as línguas. Quando se regulamenta a Lei de Línguas, em 2010, assim como o mencionado artigo constitucional, outra vez foi um acordo, digamos, dentro do Estado, dos poderes do Estado, do Parlamento e do Executivo.

Porém, agora no Paraguai, estamos em um momento adverso no que concerne à liberdade em geral, o que tem dificultado a implementação dessa lei. Se essa lei for aplicada, será possível equiparar o guarani ao castelhano, elevando, assim, seu status, impulsionando seu aprendizado e assegurando sua vitalidade para o presente e o futuro.

E é totalmente correta essa apreciação de que não se pode separar a questão linguística da questão econômica, política e social, já que constituem um mesmo desafio – e a Lei de Línguas está alinhada a isso. Deve-se ter em mente que o planejamento linguístico é, também, um planejamento social. Não se pode planejar a normalização da língua sem levar em conta as mudanças sociais necessárias para tanto.

No Paraguai, o guarani está passando por crises muito graves, como o estão os camponeses indígenas. O Paraguai sempre foi um país rural. Há vinte anos, 60% da população vivia no campo. Agora, essa cifra é de menos de 40%. Empresas agrícolas estão expulsando os camponeses indígenas de seus territórios, e a soja está minando as propriedades que os camponeses monolíngues tradicionais utilizam. Por conseguinte, esses camponeses acabam indo para São Paulo, para Ciudad del Este, para Asunción; outros, para a Argentina. E é certo que, os que vão ao Brasil, devem aprender o português; os que vão à Argentina, o castelhano; e os que vão a Ciudad del Este, o castelhano e o português. Do contrário, não podem encontrar trabalho, ou, em outro caso, até conseguem encontrá-lo falando apenas guarani, mas em condições extremamente mal remuneradas e, muitas vezes, em situação de exploração.

Portanto, do modo como estão as coisas, o ambiente e a realidade sociolinguística é totalmente adversa à língua guarani. E o que deve se feito, então? Garantir a implementação das políticas necessárias a partir do Estado, mas se o Estado não o fizer, isso deve ser impulsionado pela sociedade civil. A Lei de Línguas, a oficialização do guarani em 1992, entre outras, são todas conquistas populares. Foram impulsionadas “de baixo para cima”. Desse modo, continuaremos impulsionando “de baixo para cima” a normatização da língua guarani em respeito aos direitos humanos.

O guarani, certamente, tem grandes desafios. Um deles se relaciona ao fato de que está diminuindo o número de monolíngues em guarani. Em 1950, provavelmente 90% da população paraguaia tinha como língua materna o guarani e 50% era monolíngue em guarani. Em 1992, 37% da população era monolíngue guarani. Em 2002, tal cifra baixou para 27%. Lamentavelmente, não temos os resultados do censo de 2012 [5], mas alguns meios de comunicação dizem que, segundo dados preliminares, o monolinguismo guarani está abaixo dos 15%. Isso significa que, daqui a vinte anos, mais ou menos, não haverá mais monolíngues em guarani no Paraguai. Não significa que não saibam ou que não falem o guarani, mas que não são monolíngues em guarani, e, para mim, os monolíngues são a base da língua.

Por outro lado, preocupa-me muito que os pais e mães que falam ambas as línguas no Paraguai não transmitam o guarani a seus filhos. Provavelmente, 70 ou 80% deles terminam por transmitir apenas o castelhano, e isso sem falar nos paraguaios que vivem no exterior. Dessa mesma maneira, o sistema educacional é totalmente adverso à língua guarani. A prática do ensino segue sendo monolíngue castelhana ao passo que, constitucionalmente, a educação paraguaia é bilíngue em castelhano e guarani.

Uma pessoa, por exemplo, que anda por Asunción pode ver cartazes anunciando “educação bilíngue castelhano/inglês”. Isso é inconstitucional! O Estado deveria atuar e suspender esses colégios, pois não podem violar a Constituição Nacional. A Carta Magna diz claramente que as duas línguas oficiais – portanto, também as duas línguas da educação ou do ensino – são o guarani e o castelhano, de modo que um colégio ou universidade não pode colocar um letreiro em que se lê “educação bilíngue castelhano/inglês”.

 

 

PARAGUAI TEETE:

Você diz que muitos dos imigrantes paraguaios falantes de guarani não o transmitem a seus filhos, o que põe em perigo a sobrevivência da língua. Por que isso ocorre?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Esse é um tema muito amplo e difícil de explicar, mas tratarei de resumir, pelo menos a partir de meu modesto ponto de vista.

O Paraguai é, em grande medida, um país “xenocêntrico”. Significa que os paraguaios, em geral – não por vocação ontológica ou por ser algo natural, mas por uma construção social imposta, por tempos, a partir do Estado e pelas relações coloniais de poder –, sempre preferem mais o que é estrangeiro ao que é seu. Isso se vê na música, por exemplo. Gostamos tanto de escutar música brasileira, mexicana, colombiana, mas, muitas vezes – especialmente os jovens, hoje em dia –, muitos sentem vergonha de escutar a polca paraguaia e a guarânia. Por quê? Porque isso é Paraguai, e esse é um problema grave. Então, nós, paraguaios, temos um complexo social e, também, linguístico. Sempre digo como exemplo: conheço muitíssimos espanhóis que vivem aqui no Paraguai que nunca aprenderam guarani e sempre falam em espanhol da Espanha. Assim acontece também com os argentinos, que falam o castelhano argentino e não aprendem guarani. Por outro lado, quando um paraguaio vai para a Espanha e fica por quatro ou cinco meses, já volta falando como um espanhol.

Trata-se de uma construção social. Como eu dizia, ainda que tenhamos uma lealdade linguística ao guarani, é certo também que somos “complexados” e que não queremos assumir o guarani como “nosso”. E por que isso? Por tanta repressão que já houve. Lembre-se de que, no período após o término da guerra, era comum uma criança apanhar na boca após falar guarani. Não se permitia que as crianças falassem guarani, ainda que fosse sua única língua. Essa repressão tão criminosa que foi imposta fez o país se reduzir ao mutismo. Então, se por tantos anos o batessem na boca e lhe dissessem que a língua que você fala é suja e que o atrasa, você, por fim, apesar de gostar tanto de sua língua, teria vergonha dela. Isso é o que eu chamo de “complexo”.

Os paraguaios que vivem no exterior também levam consigo isso. Gostam do guarani, mas não estão convencidos de que devem passá-lo a seus filhos. O castelhano, sim, muitos acabam transmitindo, mas não o guarani, e essa é uma questão que me preocupa muito. Já estive na Argentina, por exemplo, e provavelmente 98% dos filhos de paraguaios residentes lá não falam guarani. Os paraguaios nunca se convenceram de que, por soberania, têm que defender o “seu”, têm que defender sua bandeira, seu hino, sua língua, sua terra. Os japoneses e alemães que vivem no Paraguai, por exemplo, primeiro falam em suas casas o japonês e o alemão, respectivamente. Os paraguaios que vivem no exterior, por sua vez, não estão convencidos de que o guarani seja sua língua, mas, sim, somente o castelhano, pois é a língua da elite, a língua de prestígio em seu país.

 

 

PARAGUAI TEETE:

Em 2014, vimos o lançamento do Facebook e do navegador Mozilla Firefox em guarani. Em sua opinião, a internet – um símbolo da globalização e da uniformização de certas características ao redor do mundo – pode ser também uma chave para o fortalecimento do idioma guarani (algo local), sobretudo com relação aos jovens?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

Isso é muito importante. Já está em uso, sim o Facebook, cuja tradução ao guarani tem sido trabalhada pela fundação Yvy Marãe’ỹ com uma empresa da Catalunha. Temos trabalhado, também, em um projeto de investigação e criação sobre terminologias para a internet e a informática.

Sem dúvida, essas ferramentas são fundamentais para a língua. A modernização está dentro do planejamento do corpus. Em outras palavras, a modernização está relacionada ao objetivo de que a língua tenha sempre ferramentas para viver. Além do projeto sobre o Facebook, o Mozilla e outros buscadores, temos a possibilidade de trabalharmos, ao lado dessa mesma empresa catalã, com uma multinacional desenvolvedora de softwares, o que ajudaria muito o guarani. Ações como essas fazem com que o status da língua seja elevado. Ações como essas são justamente as que vão ajudar a Lei de Línguas ter status.

Fundação Yvy Marane'y - 2

Fundação Yvy Marãe’ỹ. Imagem gentilmente cedida por Miguel Ángel Verón.

 

 

PARAGUAI TEETE:

Diz-se, muitas vezes, que temos que preservar as línguas nativas, como é o caso do guarani. Para você, por que se deve preservar o guarani? Qual é a importância disso?

MIGUEL ÁNGEL VERÓN:

É preciso entender o que um grande linguista francês chamado Claude Hagège dizia: “as línguas são janelas através das quais as populações humanas põem o universo em palavras”. Cada língua, seja o guarani, seja o português, o castelhano ou qualquer outra, é uma janela, e cada uma dessas línguas representa um universo distinto. Esse mesmo linguista afirma que, quando morre uma língua, empobrece-se a mente humana.

O guarani, de alguma forma, tem muita relação com o campo, tem muita relação com a natureza, tem muita relação com a preservação do ambiente que estamos destroçando no Paraguai e, em grande medida, na América Latina. Se o guarani se debilita e morre, é certo que nossa cosmovisão – da grande maioria dos paraguaios que sabem o guarani – desaparece. Se o guarani desaparece, ou qualquer língua desaparece, morre, então, toda uma visão de mundo e toda uma cultura que essa língua veicula. Essa é a grande razão pela qual é tão importante mantermos o guarani. A forma de pensar de nós, paraguaios, está, em grande medida, sobre as bases do guarani, de modo que, se essa língua se debilita, o Paraguai perde muitíssimo. Deve-se ter em mente que, embora sejam faladas, hoje, mais de 5.000 línguas sobre a face da terra, mais de vinte delas desaparecem a cada ano. A Unesco [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] adverte que, se os povos não lutarem por suas línguas, no século XXII provavelmente serão falados apenas cerca de 2.500 idiomas.

Existe também, em adição a isso, a questão da soberania. O guarani é a língua própria do Paraguai. É a língua oficial. Então, se isso se enfraquece, naturalmente que o Paraguai perde muito. Perde soberania, perde a relação e visão que temos da natureza, etc., etc.

É tão diferente a visão e a forma dos guaranis de ver o mundo. Há um provérbio guarani, por exemplo, que diz: “Ijapúvante itestígova” (“somente os que mentem apresentam testemunhas”). De onde vem isso? Bem, com os guaranis, se você me pergunta “quem levou a cadeira que estava na praça?”, e eu lhe digo “eu não levei a cadeira”, isso basta. Já lhe disse que não levei a cadeira, e é minha palavra que vale, pois a palavra é “alma” para os indígenas. A alma e a palavra não se separam. Se digo “não levei essa cadeira”, estou colocando minha alma, estou colocando minha palavra, estou colocando meu ser, e, seguramente, se estou colocando meu ser, minha alma e minha palavra, não vou mentir a você. Enquanto isso, na justiça paraguaia ou na justiça ocidental de maneira geral, em um caso judicial, uma pessoa necessariamente tem que apresentar testemunhas. Ou seja, se vamos aplicar esse modelo aos guaranis, então todos seriam mentirosos, pois todos têm que apresentar testemunhas. Essa é, então, uma visão totalmente diferente, oposta, inclusive, à forma de ver o mundo dos europeus, dos falantes de castelhano e dos falantes de português.

O camponês paraguaio diz “Ame’ẽma che ñe’ẽ” (“já dei a palavra”), e quando uma pessoa dá a palavra, dá tudo. Lamentavelmente, esses e outros valores próprios dos paraguaios estão desaparecendo em meio a este mundo globalizado e consumista.

* * *

Notas:

[1] Como fonte, ver, por exemplo: SILVETTI, Jorge; SILVESTRI, Graciela. Territorio Guaraní. ReVista. Harvard Review of Latin America, 2015. Disponível em: <http://revista.drclas.harvard.edu/book/territorio-guaran%C3%AD&gt;. Acessado em abril de 2016.

[2] A edição n° 74 da Revista Travessia, com a gentil autorização da Missão Paz, instituição responsável pela publicação, pode ser acessada na íntegra através do seguinte linkRevista Travessia – Ed. Paraguai

[3] A Guerra da Tríplice Aliança (também conhecida como “Grande Guerra”, no Paraguai, e “Guerra do Paraguai”, no Brasil) foi um conflito que contrapôs Argentina, Brasil e Uruguai ao Paraguai entre 1864 e 1870.

[4] Em 1967, reconheceu-se o guarani como “idioma nacional” na Constituição do Paraguai, ainda que o castelhano se mantivesse como a única língua de uso oficial do país (art. 5°). Já o texto promulgado em 1992 – vigente até hoje – eleva o guarani à condição de “idioma oficial”, equiparando-o, consequentemente, ao castelhano (art. 140°). Por fim, a chamada “Lei de Línguas” (n° 4251), aprovada pela Câmara de Deputados em 9 de dezembro de 2010 e em vigor desde o dia 29 do mesmo mês, tem entre suas finalidades a garantia da vigência das línguas oficiais do Paraguai “nos três Poderes do Estado e em todas as instituições públicas” e  o estabelecimento do guarani como “objeto de especial atenção por parte do Estado, como símbolo da identidade cultural da nação, instrumento de coesão nacional e meio de comunicação da maioria da população paraguaia” (art. 3°).

A Constituição de 1967 pode ser lida no seguinte endereço eletrônico: http://www.cedep.org.py/wp-content/uploads/2012/09/CONSTITUCION-NACIONAL-1967.pdf

O texto integral da Constituição de 1992 está disponível no link abaixo: http://www.oas.org/juridico/spanish/par_res3.htm

A Lei de Línguas pode ser acessada através do seguinte endereço eletrônico: http://www.cultura.gov.py/lang/es-es/2011/05/ley-de-lenguas-n%C2%BA-4251/

[5] Em 2012, levou-se a cabo no Paraguai o “Censo Nacional de População e Moradias” – o mais longo e abrangente já realizado até hoje –, tendo entre seus objetivos a obtenção de dados mais precisos a respeito de distribuição demográfica e aspectos socioeconômicos e familiares da população do país.

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Só no Paraguai: 10 lugares assombrosos que talvez você não conheça

“Só no Paraguai” é uma expressão coloquial para definir situações ou fatos que causam assombro e que provavelmente não aconteçam em outros países. Também existem lugares únicos, que assombram por sua singularidade e que estão localizados no Paraguai. Apresentamos a você alguns desses lugares que talvez não conhecesse.

 

Fonte: Rodrigo Houdin (Última Hora), 24 de março de 2016. Tradução livre.

Link: http://m.ultimahora.com/solo-paraguay-10-lugares-asombrosos-que-tal-vez-no-conocias-n977325.html

 

 

1- Há pirâmides no Paraguai!

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Na cidade de Emboscada, a 39 quilômetros de Asunción, há cerca de 25 anos está estabelecido um local de cura espiritual e relaxamento onde os visitantes podem desfrutar de um pedaço de algumas estruturas egípcias.

Inspiradas na disposição, estrutura e figuras das pirâmides de Keops, Kefrén e Micerino, as geométricas figuras se fizeram presentes em Emboscada, onde foram construídas no ano de 1988 com a ajuda de especialistas trazidos de São Paulo, Brasil. O caminho de acesso ao Parque das Pirâmides se encontra a apenas alguns metros da Municipalidade de Emboscada, no perímetro urbano da cidade. O lugar está a cerca de 200 metros da avenida principal da cidade cordillerana.

 

2- Um castelo, no meio do rio Paraguai

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El Peñón (“O Penhasco”) se ergue sobre uma pequena ilha rochosa situada nas águas do rio Paraguai, em frente à cidade de Villa Hayes. Sua história segue sendo um mistério, o que o converte em um potencial atrativo para o turismo.

Alguns dados falam que sua construção teve início no ano de 1936, pelas mãos do capitão Lázaro Aranda, pelo qual também é conhecido pelos habitantes locais como “O castelo do capitão Lázaro”. Por outro lado, outros antecedentes indicam que o lugar foi construído por jesuítad. Também existe uma disputa entre as cidades de Limpio e Villa Hayes sobre a que domínio pertence.

Pode-se chegar ao local a partir de Piquete Cué seguindo pela rota 3. Esse bairro limpeño fica a 35 quilômetros da capital. A outra opção é através da rota Transchaco. Ao chegar à cidade de Villa Hayes, deve-se dirigir até o mirante. Se o visitante não conta com embarcação, pode recorrer aos pescadores para que o levem em canoas.

 

3- Uma rocha equilibrista!

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Por definição, o equilíbrio é o estado no qual se encontra um corpo quando as forças que atuam sobre ele se compensam e se anulam reciprocamente. Esta teoria se aplica perfeitamente a duas rochas que se encontram na localidade de Paso Carreta, localizada a aproximadamente 12 quilômetros de San Roque González, departamento de Paraguarí.

Em meio à paisagem rochosa, bosques e riachos dessa região, encontra-se a “Pedra equilibrista”, uma rocha de grandes dimensões que posa estática sobre outra com uma forma pontiaguda e se converte em um atrativo imperdível para quem visita o lugar. Além disso, a localidade de Paso Carreta conta com riachos cristalinos e uma paisagem sem igual.

Para chegar à pedra equilibrista, adentra-se um caminho situado em frente da igreja da cidade de San Roque González (97 quilômetros de Asunción). Esse trajeto leva até Paso Carreta e também se conecta com a companhia José Zimbrón.

 

4- O mundo teve origem no Paraguai?

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O Cerro Guasu o Jasuka Venda se situa no departamento de Amambay, próximo à fronteira com o Brasil. Esta formação natural se encontra na Colonia San Fernando de Capitán Bado. Esse é o principal patrimônio da etnia guarani Pa’i Tavyterã, um lugar sagrado onde, segundo as crenças indígenas, surgiu o Deus Criador e o Grande Avô, Ñande Ru, e a partir do qual foram criados o mundo e a humanidade.

Esse local é composto por uma elevação rochosa coberta de bosques, com cavernas e nascentes de riachos. Em 2009, encontrou-se o indício mais antigo da presença do homem no Paraguai, com mais de 5.000 anos.

Os indígenas consideram que esse lugar tem uma energia cósmica, e após vários anos de luta, conseguiram que fosse expropriado pelo Estado para se converter em reserva natural. Também possui escrituras rúnicas, as quais crê-se ser dos boquinos.

 

5- Um barco enterrado

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O departamento de Ñeembucú guarda um dos vestígios mais importantes da Guerra da Tríplice Aliança: um navio hospitalário que está enterrado entre pântanos.

Segundo os documentos oficiais do Arquivo Naval Brasileiro, trata-se da embarcação Eponina, que formava parte da frota naval do império do Brasil durante a guerra. Esse navio foi consumido por um incêndio em janeiro de 1866, no riacho Curuzú, nas imediações de Curupayty, com 400 pessoas entre feridos e tripulantes a bordo. Embora, em algum momento, o mesmo tenha ficado exposto, o passar do tempo e o descuido sobre o que poderia ser um museu histórico o deixou novamente enterrado.

 

6- A árvore sobre uma chaminé

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“A natureza faz seu caminho”. Assim põe em evidência uma árvore solitária que se prendeu em cima de uma antiga chaminé da companhia Ka’aguy Kupe, situada no caminho que une as cidades de Luque e Mariano Roque Alonso, zona do aeroporto, departamento central.

Há mais de 20 anos, esse rebelde exemplar da flora fez seu caminho sobre uma antiga chaminé.

Recentemente, incluiu-se essa obra da natureza entre os 33 locais abandonados mais belos do mundo.

 

7- Cerro Kõi e suas rochas hexagonais

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A singularidade que apresentam as formas colunares hexagonais dos arenitos no cerro Kõi de Areguá se converte em um grande atrativo para turistas de todo o mundo. No ano de 2009, foi nomeado como monumento nacional.

Segundo os especialistas, o Kõi adquiriu forma de estruturas hexagonais por ter sido calcinado por um material magmático ascendente, o que produziu a peculiar forma.

 

8- Castelo em Colonia Independencia

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Com 18 metros de altura e 150 metros de diâmetro, destaca-se na zona de Colonia Independencia, departamento de Guairá, o castelo conhecido como “Castelo Echauri”. Essa estrutura construída em sua maior parte de pedras foi desenhada por Guillermo Echauri.

O castelo possui uma estrutura cilíndrica com vários pisos habitáveis. Além disso, conta com uma perfeita vista do Valle de Colonia Independencia misturado com os verdes picos da Cordilheira do Ybytyruzú.

Essa peculiar estrutura chama a atenção de todos aqueles que visitam a cidade de Colonia Independencia. Também é conhecido como o “Castelo do Ybytyruzú” ou “Castelo Colonia Independencia”.

 

9- Um pedaço do mar em Amambay

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O lago Ojo de Mar (“Olho de Mar”), situado nos recônditos de Bella Vista Norte (a cerca de 50 quilômetros), departamento de Amambay, na zona conhecida como Colonia Pedro Juan Caballero, sem dúvida alguma é um dos locais mais assombrosos com os quais conta o Paraguai.

Esse lago surgiu naturalmente após uma erupção vulcânica. Em todos os seus arredores, pode-se visualizar uma grande vegetação subtropical.

A água do lago é cristalina, com certa coloração esverdeada, e até agora não se conhece sua profundidade. Possui 100 metros de diâmetro, onde se pode notar uma perfeita vazão que não cessa em nenhum momento do ano.

 

10- A reserva ecológica mais valiosa do planeta

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Uma das reservas naturais mais valiosas do mundo se situa em Santa Rosa del Aguaray, San Pedro, onde o capricho da natureza não só permitiu a existência da conhecida “Lagoa Branca”.

Nessa zona, encontram-se quatro ecossistemas: o bosque fechado, o atlântico, a lagoa e uma transição entre ambos os tipos de bosques, que é única no mundo.

Essa riqueza acolhe uma das aves mais raras e em perigo de extinção, o yby yaú morotî ou ataja caminos ala blanca (Eleothreptus candicans). Ademais, nessas terras, encontra-se a anaconda verde mboi jaguá (Eunectus murinus). Nesse território, existem milhares de espécies de animais e a maior variedade de répteis e anfíbios do país. Inclusive biólogos escoceses, ingleses e norte-americanos decidiram se instalar no local para realizar investigações científicas.

 

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Brasil em recessão: Repercussões no Paraguai

Fonte: Ricardo Rodríguez Silvero (Última Hora), 26 de março de 2016. Tradução livre.

Link: http://www.ultimahora.com/brasil-recesion-repercusiones-paraguay-n977817.html

Puente de la Amistad

Lado paraguaio da Ponte Internacional da Amizade. | Foto: Arquivo UH

 

Resgatando uma breve história recente, nosso país vem se integrando a seu maior vizinho circundante em ritmo acelerado desde a inauguração da Ponte da Amizade, em 1965, por todos os canais possíveis, diretos e indiretos, legais e ilegais: comércio exterior de bens e serviços, transferências, investimentos diretos, créditos, a megaempresa hidrelétrica de Itaipu, interesses militares estratégicos, vínculos culturais e muitos outros, visíveis e invisíveis.

 

AVALIAÇÕES POR SALDOS. As relações internacionais entre países, como as de Paraguai e Brasil, não têm para cada um apenas aspectos positivos nem somente negativos, mas uma mistura difusa dos mesmos. Ao final, há de se tirar conclusões por saldos: o que valerá nelas será o peso ponderado e a quantidade numérica de um ponto ou de outro.

 

ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS. Analisando o ocorrido em 2015, a recessão brasileira (-4%) tem afetado negativamente nosso país, especialmente nesse subsetor da economia paraguaia cuja atividade principal consiste em exportar ao Brasil. A desvalorização do real e a queda da demanda interna do país vizinho fizeram com que tais empresas locais, exportadoras ao Brasil, caíssem em dificuldades existenciais. Várias têm visto reduzidas suas exportações ao país vizinho e não veem solução em curto prazo. Já entraram em moratória, atentos a seus créditos locais. Assim, a taxa de morosidade do sistema financeiro no Paraguai tem aumentado significativamente.

 

ALGUMAS POSITIVAS. Como uma parte considerável da cesta básica familiar no Paraguai, em torno de 30% dos bens negociáveis é de origem brasileira. A maior desvalorização registrada no Brasil tem conduzido a uma queda no nível de preços em nosso país. Efetivamente, o barateamento de bens de consumo, provenientes do Brasil, reduz consideravelmente o custo da cesta básica a nível local, o que acarreta em benefícios aos estratos sociais baixos.

Por outro lado, essa diferença em termos de desvalorização entre Brasil e Paraguai, sendo substancialmente maior a brasileira, repercute positivamente também no fluxo de turistas paraguaios ao Brasil, assim como na visita de familiares de trabalhadores paraguaios nesse país.

A repercussão mais positiva de todas: a piora da situação no Brasil e a melhora das condições de investimento no Paraguai atraem capitais ao nosso país!

 

EXPORTAÇÕES EM BAIXA. Segundo o método de registro do Banco Central do Paraguai, que inclui as cifras preliminares providas pelo Ordenamento Fiscal Impositivo Aduaneiro (Sofía) da Direção Nacional de Aduanas (DNA) e os certificados de origem emitidos pelo Ministério de Indústria e Comércio (MIC), as exportações paraguaias ao Brasil em 2014 ascenderam a US$ 2.956.300.000,00 (correspondente a 77% das exportações ao Mercosul e a 31% do total das exportações registradas). Em 2015, contudo, tais cifras representaram uma baixa nas exportações ao país vizinho, as quais somaram US$ 2.651.400.000,00 (-304,9 milhões ou -10,3%). Essas exportações reduzidas corresponderam a 77% daquelas dirigidas ao Mercosul e a 32% das totais, o que significa que as proporções permanecem iguais em relação ao subtotal e ao total daquelas.

 

IMPORTAÇÕES FORAM REDUZIDAS AINDA MAIS. Utilizando a mesma fonte de dados, as importações do Brasil somam em 2014 US$ 3.164.500.000,00 (64% das importações do Mercosul e 28% das totais). Em 2015, contudo, baixaram para US$ 2.416.100.000,00 (61,5% das importações do Mercosul e 25,5% das totais), ou seja, uma queda de 748,4 milhões de dólares. Nessa direção do comércio exterior, também as proporções se contraem.

 

Em resumo, o comércio exterior de mercadorias entre Paraguai e Brasil diminuiu consideravelmente durante a recessão brasileira em 2015. A maior redução foi registrada nas importações paraguaias de produtos brasileiros.

 

Uma análise mais completa dessa relação bilateral está publicada no número de fevereiro de 2016 da revista PLUS+, de circulação local.

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“Perder-nos do Mercosul era perder tudo, e significava ficar isolado”

Hoje, comemoram-se 25 anos da assinatura do Tratado de Assunção, que deu origem ao processo de integração econômica entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Os objetivos mais importantes não foram cumpridos ainda, diz o diplomata.

 

Fonte: Susana Oviedo (Última Hora), 26 de março de 2016. Tradução livre.

Link: http://m.ultimahora.com/perdernos-del-mercosur-era-perder-todo-y-significaba-quedar-aislado-n977847.html

 

O embaixador Antonio Félix López Acosta viveu grande parte de todos os processos de integração do país, desde que iniciou como secretário de atas da Comissão Nacional de Zona de Livre Comércio, quando se configurou nos anos 60 a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (Alalc), substituída em seguida pela Aladi, em 1980. O diplomata integrou o Conselho Nacional de Comércio Exterior da Chancelaria Nacional e participou ativamente das negociações do Tratado de Assunção, cuja assinatura, na capital paraguaia, em 26 de março de 1991, cumpre, hoje, 25 anos. Esse acordo deu corpo e nascimento ao Mercado Comum do Sul (Mercosul). Para o embaixador López, que se retirou da Chancelaria Nacional em 2000 após representar o Paraguai diante da Aladi durante 10 anos e desempenhar o papel de embaixador na Espanha e de concorrente ante o Marrocos, o Mercosul constitui o projeto de integração regional mais relevante que envolve Paraguai, Argentina, Brasil e Uruguai, apesar de, em um quarto de século, afrontar uma crise de credibilidade e não ter conseguido constituir-se ainda como um Mercado Comum.

 

– Como se conseguiu que o Tratado de criação do Mercosul fosse firmado em Asunción?

– Foi produto de uma estratégia de negociação. Os 4 países fundadores do bloco queriam que a assinatura se desse em seu próprio território. O Uruguai argumentou que já tinha, primeiro, a Alalc e, depois, a Aladi em Montevidéu, onde já estavam representantes permanentes dos países, não sendo, portanto, requeridos gastos adicionais. O Brasil ofereceu para o ato um edifício novo em São Paulo, o que também foi feito pela Argentina.

 

– E o Paraguai?

– O Paraguai não dizia nada parecido. Mas sugerimos o seguinte: “Vocês têm tudo isso e mais, mas Asunción está a duas horas e meia de suas capitais. Então, todos podem estar aqui no momento que for necessário para qualquer reunião extraordinária”. Por outro lado, Buenos Aires ou Montevidéu estão a mais horas de Brasília. O Paraguai, então, pensava no Banco Central como edifício onde poderia ser assinado o tratado.

A assinatura de um tratado em uma capital significa que ali estaria a sede. A Alalc e, logo depois, a Aladi foram instaladas no Uruguai, após as assinaturas dos Tratados de Montevidéu nos anos 60 e, posteriormente, 80, respectivamente.

 

– Então, por que não se instalou aqui a Secretaria Geral do Mercosul?

– Bem, o que me recordo é que o embaixador brasileiro, chefe da delegação negociadora, foi muito hábil a respeito disso. Não pediu a sede, mas a secretaria executiva, que funciona na sede. Nós solicitamos a secretaria administrativa do Mercosul. Tudo estava traçado para que estivesse em Asunción. Mas não sei o que ocorreu em seguida, pois o Uruguai finalmente conseguiu o que buscava, e nós conseguimos que o Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul tivesse a sede em Asunción.

 

– Por que em 25 anos não se cumpriu ainda o primeiro artigo do Tratado de Assunção que almeja a constituição de um mercado comum?

– Isso é fácil de explicar. O Tratado de Assunção cria um processo para se chegar ao mercado comum, não o mercado comum propriamente dito. Pensou-se que negociaríamos tudo em 5 anos, ainda que nós, os negociadores, sabíamos que não seria assim, mas que chegaríamos, em uma primeira fase, na verdade, a uma zona de livre comércio e, depois, a uma união aduaneira com as tarifas de importação uniformes. Porém, o que acontece? Nem a zona de livre comércio temos consagrada. Temos restrições, e nem na linguagem económica e jurídica existe a categoria de União Aduaneira Imperfeita, porque estão estabelecidas exceções à movimentação de bens e serviços (nem todos os países membros aplicam as mesmas tarifas, há exceções pontuais que estabelecem diferenças com países de fora da zona).

 

– O que significa esse status, então?

– É que não se trata de uma união aduaneira.

 

– O Paraguai embarcou em um trem que já estava em movimento, quando Argentina e Brasil o convidaram para o Mercosul?

– Bem, o que se disse na ocasião era que tínhamos que embarcar no trem, porque se ficássemos de fora, perderíamos mais. A diretriz foi: Temos que estar dentro para podermos negar algo que possa nos prejudicar. Se não, quando obtivermos o acesso, vão exigir de nós certas questões em troca do ingresso. Perder essa oportunidade, como país mediterrâneo, era perder tudo. Ficaríamos isolados economicamente.

 

– O que você opina sobre o Mercosul que conhecemos hoje?

– Como um processo que se encontra confrontando uma forte crise de credibilidade, digo que os avanços não têm refletido as expectativas da ideia originária, particularmente, pelas medidas restritivas adotadas como resposta a situações provocadas pelo comércio internacional. As travas não-tarifárias subsistem; o livre trânsito de bens e serviços sobre pelo protecionismo imperante. As sucessivas desvalorizações dos Estados membros de maior grau de desenvolvimento têm afetado tremendamente a economia de todos, em particular, àqueles de menor dimensão econômica. A coordenação macroeconômica não existe, e não se está próximo de alcançar um mercado comum. Os objetivos mais importantes do Tratado de Assunção não foram cumpridos.

 

– Já foi revogada a Declaração de Foz do Iguaçu (1985), subscrita por Argentina e Brasil para um processo de integração, depositado na Aladi, antes de se pensar no Mercosul?

– Está vigente. Para revogar esse documento, ambos os países devem estar de acordo. Nós não podemos obrigá-los. Sempre foram avisados, mas são países soberanos. Eles obrigaram o Paraguai, contudo, em 2012, a estar fora do Mercosul, mas esse é um tema para outra entrevista. Em virtude desse instrumento, podem tomar decisões, mas depois devem incorporá-las ao Mercosul, e é aí que nós podemos dar uma demora em seu tratamento ou tirar alguma vantagem também do que eles acordam. Eles podem acordar algo, por exemplo, com a União Europeia ou com o grupo Andino, mas as vantagens que receberem devem ser repassadas ao bloco.

 

– Entre os países fundadores do Mercosul, é o Brasil o único que não conhece a supranacionalidade?

– Sim, é o único. Os outros três países incorporam esse princípio. Se o Brasil perde em um tribunal internacional como o de Haia, sua Constituição diz que eles são um país soberano, não reconhecem a jurisdição. Sua Carta Magna não os permite aceitar resoluções de divergências que sejam desfavoráveis ao seu país. Quando o Brasil incorporar a supranacionalidade, poderemos ter no Mercosul um Tribunal de Justiça. O que existe atualmente é de revisão.

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Começa a Guerra do Paraguai

No dia 27 de janeiro de 1865, teve início a guerra entre Brasil e Paraguai

Era o começo de um conflito que iria se prolongar por seis anos, terminando apenas no dia 8 de abril de 1870. Questões de fronteiras entre os três países, liberdade para a navegação nos rios platinos, disputa de poder de facções locais e rivalidades históricas podem ser citados como fatores que levaram à guerra.

O conflito terminou no dia 8 de abril de 1870 com vitória do Brasil, Argentina e Uruguai e grande destruição do Paraguai, que perdeu 80% da sua população de jovens e adultos, e levou décadas para se recuperar. Estima-se que o Brasil perdeu 50 mil combatentes, enquanto a Argentina teve 18 mil mortos na guerra.

 

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Globo Repórter desvenda um Paraguai que poucos conhecem

Programa desta sexta (27) faz uma viagem cheia de surpresas atravessando por paisagens deslumbrantes em um território ainda selvagem.

http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2015/11/globo-reporter-desvenda-um-paraguai-que-poucos-conhecem.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=grep

Quantos brasileiros já cruzaram a fronteira e não viram as mais deslumbrantes paisagens do Paraguai?

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Ciclo de palestras – “O guarani: língua que nos une”

Angel Rama USP

O Centro Ángel Rama de Estudos Latino-americanos tem o prazer de convidar para o ciclo de palestras “O guarani, língua que nos une”, que serão ministradas nos dias 12/11 e 25/11 pelo Prof. Almir da Silveira (Ateneo de Lengua y Cultura Guaraní – Regional de São Paulo) das 18:00 às 19:30.

A atividade é gratuita.

Confira a programação: https://docs.google.com/forms/d/1Ihm_iwWypoI4vthab3IAu9IGyapk48LlElhZ4Hnuf8I/viewform?c=0&w=1

Para maiores informações, ou em caso de dúvidas, entrar em contato com o Centro Ángel Rama, pelo endereço: carama@usp.br

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